
«E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade…»
(Camões, versos do Canto IV).
- Evaristo de Miranda
10 de junho celebra a identidade luso-brasileira ao homenagear Luís de Camões, o autor de Os Lusíadas, na data de sua morte.
Algo um pouco paradoxal. E com ele, celebra-se Portugal e sua diáspora. Para a agricultura do Brasil, a data simboliza a herança portuguesa pela introdução histórica de cultivos, animais e técnicas agrícolas. A data é reforçada pelo atual e intenso intercâmbio comercial e tecnológico com o agronegócio português.
A contribuição portuguesa foi o alicerce do sistema agropecuário nacional, impactando desde a base nutricional até a economia brasileira nos dias de hoje. Os povoadores lusitanos introduziram a quase totalidade dos animais domésticos explorados hoje no Brasil, do boi às galinhas, passando pelos equinos, e com cultivos como a cana-de-açúcar, o arroz, o café e a laranja, além de hortaliças fundamentais como cebola e cenoura. As variedades brasileiras dessas hortaliças ainda possuem material genético lusitano.
Atualmente, a relação se inverteu em algumas frentes, com o Brasil exportando expertise (como plantio direto e genética) e Portugal fornecendo inovação em sistemas de irrigação inteligente e mecanização para pequenas propriedades.
Portugal tem servido como uma porta de entrada estratégica para o agronegócio brasileiro no mercado da União Europeia. O Brasil fechou as transações comerciais de 2025 com um superávit comercial de US$ 2 bilhões com Portugal. A corrente de comércio bilateral movimentou um total de US$ 4,5 bilhões. O Brasil exportou US$ 3,3 bilhões e importou US$ 1,25 bilhão.
A pauta de exportações brasileiras para o mercado lusitano é liderada pelo setor energético e industrial, na qual a cadeia agropecuária e industrial tem participação relevante. Após o petróleo e aeronaves (há uma forte parceria industrial com a Embraer), a soja (e derivados) é o principal produto do agronegócio exportado à nação ibérica.
A pauta de compras do Brasil reflete a tradição alimentícia e o avanço tecnológico de Portugal: o azeite de oliva é líder absoluto das importações brasileiras. Vinhos, bacalhau, pescados e alimentos tradicionais da gastronomia portuguesa marcam as importações brasileiras.
Nas trocas entre o agronegócio português e o brasileiro crescem as tecnologias modernas e inovações de ponta. E nenhum entendimento precisa de tradução. Vale lembrar nesta data, uma das mais célebres afirmações do Livro do Desassossego de Fernando Pessoa: – A minha língua é a minha Pátria!
Cinco séculos depois, no campo, na mesa e no comércio, Brasil e Portugal continuam a conjugar a mesma língua em tempos e modos diferentes. Compartilham conhecimentos, tecnologias e alimentos entre as duas margens do Atlântico. O mar sem fim.