- Evaristo de Miranda

O Dia da Imigração Alemã no Brasil é festejado em 25 de julho. Nessa data, em 1824, dois anos apenas após a Independência, os imigrantes alemães chegaram ao país por incentivo de Dom Pedro I e do major Georg Schäffer. O objetivo era contribuir para o povoamento do Sul e implantar, por meio de pequenas propriedades rurais, outro modelo de agricultura. Hoje, estima-se em cerca de 5 a 10 milhões de descendentes de alemães no país. São 202 anos de contribuições originais ao desenvolvimento da agricultura, da indústria e da economia nacional.

Eles deram início à Colônia e à cidade de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Além de recrutar colonos, o major Schäffer [quadro ao lado] contratou pessoas de várias profissões, artesãos qualificados como alfaiates, ferreiros, marceneiros e relojoeiros, para dar uma base econômica e social às novas comunidades. Em quatro anos, o major Schäffer trouxe mais de seis mil pessoas.
Na década de 1850, D. Pedro II promoveu outra onda migratória dirigida ao Sul e Sudeste. Em São Paulo, parte desses imigrantes substituíram como assalariados a mão de obra escrava nas lavouras de café. Em razão de conflitos políticos, perseguições raciais e das Grandes Guerras, um outro contingente de alemães imigrou ao longo da primeira metade do século XX. No total, cerca de 300 mil alemães vieram para o Brasil. A distribuição da população teuto-brasileira concentra-se fortemente no Sul e no Sudeste. Santa Catarina recebeu o maior fluxo.
No agro, essa imigração transformou o Brasil. Implantou, em larga escala, a agricultura familiar, voltada ao próprio sustento, baseada em minifúndio, trabalho livre e policultura. Rompeu com o modelo de monoculturas voltadas à exportação (cana, café, tabaco) dos latifúndios escravocratas.
Devido ao seu alto índice de alfabetização e aos conhecimentos técnicos trazidos da Europa, os imigrantes alemães impulsionaram a diversificação na produção de alimentos (batata, trigo, arroz, centeio, milho, criação de suínos…). Os excedentes eram vendidos no mercado interno e fortaleceram as economias locais. Eles criaram muitas escolas comunitárias, reduziram o analfabetismo e elevaram os índices educacionais e cívicos locais.
Para superar o isolamento e os altos custos de maquinários e insumos, os alemães criaram as primeiras associações e cooperativas de crédito e produção. Esse modelo associativista sustenta boa parte do agronegócio sulista, como na produção de suínos. Ao implantar ferrarias, marcenarias e manufaturas, aceleraram o desenvolvimento das primeiras indústrias no Sul e Sudeste e fortaleceram os processos de urbanização.
Os descendentes de alemães lançaram as bases das primeiras grandes potências agroindustriais do Brasil. A família Logemann começou suas atividades no Rio Grande do Sul e fundou o Grupo SLC Agrícola, um dos maiores produtores de soja, milho e algodão do mundo. Na agroindústria, as famílias Döhler, Hering e Karsten construíram impérios no ramo têxtil, cuja força empresarial nasceu das colônias rurais.
As Lojas Renner nasceram em 1922, quando Antônio Jacob Renner, descendente de alemães, passou a comercializar, em Porto Alegre, produtos derivados da banha de porco, fabricados pela família. A Rede Havan, fundada em 1986 em Brusque, tem em Luciano Hang um empresário de ascendência alemã e italiana, oriundo do tradicional polo têxtil do Vale do Itajaí. A família Gerdau criou uma das maiores siderúrgicas das Américas, fornecedora essencial de aço para maquinários agrícolas.

Antes da imigração alemã, o consumo de cerveja no Brasil era restrito a importações. Os alemães introduziram técnicas avançadas de fabricação como a baixa fermentação (Pilsen) e receitas tradicionais de cervejas. A Antárctica foi criada em 1885, com forte presença de capital e mestres-cervejeiros de origem alemã. A Brahma foi fundada em 1888 pelo suíço-alemão Joseph Villiger. Serramalte e marcas regionais, como a Polar, foram fundadas por imigrantes alemães. E nasceu a cultura cervejeira nacional.
A imigração alemã foi pioneira na fundação de pequenas manufaturas. Seus descendentes criaram alguns dos maiores conglomerados multissetoriais, agroindustriais e impérios cervejeiros.
Dois séculos depois, o legado germânico no agro segue impulsionado por gigantes de máquinas e insumos como Bayer, BASF, Claas, Horsch, Amazone, DVA Agro e outras. Elas lideram segmentos de sementes, defensivos, fertilizantes, biotecnologia, agricultura digital e máquinas agrícolas, um intercâmbio tecnológico iniciado pelos primeiros colonos. Símbolo dessa história, a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha atua como uma ponte estratégica entre as economias dos dois países.
Nem tudo são rosas – nem edelvais – no legado teuto-brasileiro. Neste ano, o Dia da Imigração Alemã ganhou significado adicional. Durante cerimônia em Santa Catarina, o Presidente Lula associou parte dos descendentes de alemães ao racismo, à supremacia branca e fez menção direta ao ditador nazista: “Hitler tentou fazer isso e acabou do jeito que acabou”. Generalizações dessa natureza ignoram dois séculos de contribuição dos teuto-brasileiros à agricultura, à indústria e ao desenvolvimento nacional.

Edificações em enxaimel no Parque Aldeia do Imigrante em Nova Petrópolis, um aspecto construtivo típico da arquitetura colonial alemã.
O legado alemão vai muito além de arquitetura enxaimel, festas típicas ou tradição cervejeira. Ele está na agricultura familiar, no cooperativismo, na agroindústria, na mecanização do campo, na pesquisa, na tecnologia e na formação de milhares de comunidades rurais. Acima de discursos político-ideológicos anacrônicos, permanecem valores como trabalho, educação, organização comunitária e inovação. Poucos movimentos migratórios deixaram marcas tão duradouras na construção do agronegócio brasileiro.