
Evaristo de Miranda
A misericórdia de Deus se estende sobre os filhos dos seus filhos.
Salmos 102, 17
Perguntaram a Sofia, uma menina de nove anos, com síndrome de Down, o que ela gostaria de ser quando crescesse. Ela respondeu: – Eu gostaria de ser avó! Perguntaram-lhe por quê. Ela completou: – Porque as avós escutam, compreendem. E além do mais, a família se reúne inteirinha na casa dos avós. Nem sempre os avós recebem a devida atenção. Nem lhes são dadas as oportunidades para manifestar seus dons.
Ao desejar ser avó, Sofia resumiu perfeitamente três das principais capacidades dos avós: escutar, compreender e reunir. Avós escutam. Eles têm tempo. Se aposentados, seu ritmo de vida diminui. Enquanto o pai e a mãe trabalham até o esgotamento, os avós têm tempo. Os pais levam os filhos à escola correndo. Avisam: estão atrasados, apressam os filhos… Com os avós, eles caminham tranquilamente. Basta observá-los na entrada das escolas. Seus passos estão harmonizados. Uma das graças dos avós consiste em dedicar às crianças, sobretudo às mais frágeis, tempo de admiração e maravilhamento. Eles saboreiam as perguntas das crianças. Compartilham suas pequenas alegrias. Ouvem suas queixas, mágoas e tristezas. Sua disponibilidade parece infinita. Sua paciência ultrapassa gerações.
Além de ouvir, os avós compreendem. A discrição dos avós é capaz de guardar os segredos dos adolescentes, as aventuras dos jovens e suas confidências dolorosas… muitas vezes negadas aos ouvidos dos pais. Os pais são a lei. Os avós são o sonho. São espaço de tolerância e aceitação. Erros e equívocos, escondidos dos pais, são relatados em toda confiança aos avós.
Finalmente, os avós reúnem a família. Suas casas são locais encantados onde ocorrem as celebrações natalinas, a Páscoa, as passagens de ano… lugares onde se saboreiam pratos especiais. Hoje em dia, essas reuniões se tornam mais raras e difíceis, com as famílias nucleares e seus infinitos afazeres. A família extensa ainda é um dom. Permite à criança tomar consciência das próprias raízes. Permite participar de uma memória comum, de uma herança transmitida entre gerações. Essa experiência convida a ampliar a vida comunitária, a solidariedade nas dificuldades e passagens difíceis. Os avós têm a graça de manter – até onde é possível – os laços familiares. Só se percebe isso, quando eles não estão mais aqui. O vivido na infância, na casa dos avós, é marca indelével para o resto da vida.

Diversos estudos em psicologia do desenvolvimento, neurociência e sociologia mostram o impacto positivo da convivência entre avós e netos: maior segurança emocional, fortalecimento da identidade familiar, transmissão de memória, desenvolvimento da linguagem, redução da solidão dos idosos e até benefícios cognitivos para ambos.
A ciência apenas confirmou aquilo conhecido havia séculos pelas famílias: a convivência entre avós e netos faz bem às duas gerações.
Claro, nenhuma generalização é possível. Existem avós abandonados em clínicas e casas de geriatria. Existem avós sem condições físicas ou psicológicas de participar da vida dos filhos e netos. Existem avós isolados e segregados. Existem avós cuidando e criando os netos, normais e deficientes, em favelas e bairros pobres. Para a maioria deles, escutar, compreender e ser traço de união familiar parece uma agradável missão. Avós não podem, nem devem, ser marginalizados das informações e da convivência com os netos. Os avós entregam aos netos tesouros muitas vezes desconhecidos dos próprios pais. A força do amor e do desejo possui um poder quase infinito. Sofia tinha razão. Os avós podem muito.