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São João de Lodi – Afresco de Francesco Allegrini (1654).
Capela do Santíssimo Sacramento na Catedral de Gubbio, Itália.
Bispo e Confessor, foi discípulo e secretário de São Pedro Damião, para quem ele “é um homem digno de todos os elogios”. Sua extrema caridade o faz comparável aos grandes santos esmoleres da Igreja. Seu corpo permaneceu incorrupto. Sua memória litúrgica é celebrada no dia 7 de setembro.
- Plinio Maria Solimeo
- Fonte: Revista Catolicismo, setembro/2026
Não sabemos o nome de família deste santo, conhecido na Igreja só como São João de Lodi, que é o de sua cidade natal. Ele nasceu por volta de 1025 na antiga Laus Pompéia, que em 1158 se tornou Lodi, por influência de Frederico Barbaroxa.
Em Lodi, João recebeu excelente preparação cultural, que mais tarde lhe mereceria do bispo Tybalt (1160-1163), um de seus sucessores na Sé de Gubbio, o prestigioso título de “o Gramático, pela elegância e seriedade de seus escritos”.
Desde menino o futuro santo foi sempre muito sério, caridoso, piedoso e virtuoso, mas dotado de uma firmeza férrea quando tinha que conclamar seus amigos a levarem uma vida cristã.
Alguns de seus biógrafos narram que João era muito austero e, quando jovem, dormia no chão perto de uma igreja em Lodi Vecchio, apoiando a cabeça numa pedra bruta e sem cobertores.
Delicada missão de São Pedro Damião
Ocorreu então que, no outono de 1059, quando João teria por volta de 30 anos, o Papa Nicolau II enviou em importante missão a Milão, o já famoso cardeal Pedro Damião, acompanhado de Anselmo de Baggio (futuro Alexandre II), com a tarefa de atuarem como mediadores entre Roma e a Igreja daquela cidade. Essa missão era muito delicada, porque a situação naquela arquidiocese era muito complexa, cheia de vais-e-vens que vamos procurar resumir.
No fim da Baixa Idade Média (por volta do ano 900), a Europa conheceu uma época turbulenta oriunda da desagregação do Império Romano e do feudalismo em formação. Isso afetou muito a vida religiosa de então. Com a decadência que se seguiu, tornou-se comum os clérigos e mesmo bispos se casarem ou viverem com concubinas. Essa situação se prolongou por muito tempo, e era notória sobretudo na arquidiocese de Milão.
Ora, quando vagou a Sé dessa cidade, sua população, como era seu direito então, apresentou ao Imperador do Sacro Império quatro nomes para preenchê-la, pois esse era um privilégio do Imperador. Mas Henrique III escolheu um quinto candidato, Guido de Velate, seu apaniguado.
Por isso Guido defendia, entre outras coisas, a supremacia do poder imperial sobre o espiritual do Papa, e via com bons olhos os padres casados. Isso provocou uma reação de grande parte dos milaneses, que entraram em rebelião contra o arcebispo, a quem também acusavam de simonia.
O movimento por eles liderado foi chamado pelos seus inimigos, um tanto pejorativamente, de “Pataria”. Seus membros começaram então a boicotar as cerimônias religiosas celebradas por padres casados ou que viviam com concubinas, e a denunciar os padres que praticavam a simonia.
O Papa reinante, São Leão IX (1049-1054), que reconhecia a necessidade de reformas na Igreja, pronunciou-se contra a simonia e o concubinato de integrantes do clero.
Acontece que a maioria dos clérigos de Milão era contrária a uma maior interferência de Roma sobre sua arquidiocese e aceitava os padres casados. Quando subiu um novo Papa, Estevão IX (1057-1058), eles apelaram a ele para resolver a situação. Por isso o novo Pontífice preferiu não defender o celibato de todo o clero, e o direito dos padres legitimamente casados de assim continuarem[i].
Adiantando um pouco, essa situação continuaria até 1075, quando o grande Papa São Gregório VII “interditou tais padres de dizer missa e de exercer todas as funções eclesiásticas, enquanto o povo foi proibido de ouvir a missa que eles celebravam ou de admitir suas ministrações enquanto permanecessem contumazes. Nas controvérsias desta época, as missas ditas por esses padres incontinentes eram às vezes descritas como ‘idólatras’; mas esta palavra não deve ser pressionada, como se quisesse insinuar que tais padres eram incapazes de consagrar validamente”[ii].

localizada em Serra Sant’Abbondio, na região das
Marcas, Itália. Nela ingressou São João Lodi em 1065.
[Creative Commons / Giacomo Alessandroni]
Atitude de São Pedro Damião e de Alexandre II
Voltando a São Pedro Damião, como ele e o Cardeal Anselmo de Baggio enfrentaram tal situação?
Ambos apoiaram as reivindicações dos “patarinos”, forçando Guido a emitir um documento condenando a simonia e o nicolaísmo (ordenação de padres casados). Mas não endossaram algumas das posições de Arialdo, um dos pretendentes à Arquidiocese, que rejeitava a validade dos sacramentos administrados por padres indignos.
Desse modo se buscou uma solução conciliatória, que preservasse a hierarquia local.
Ocorreu então que, em 30 de setembro de 1061, Anselmo de Baggio foi eleito Papa (Alexandre II, 1061-1073). Em 1066 ele excomungou o arcebispo Guido[iii].
Ingresso na ermida de Fonte Avellana
Após o sucesso da missão, São Pedro Damião retornou à Lombardia, onde pregou em Lodi. Foi então que João, impressionado com a santidade do pregador, decidiu acompanhá-lo até sua ermida de Fonte Avellana, nela ingressando em 1065. Pouco depois foi ordenado sacerdote, provavelmente pelo próprio São Pedro Damião, que aparentemente administrava a diocese de Gubbio na época e era, portanto, bispo competente.
João de Lodi tornou-se um eremita exemplar: morava numa pequena cela perto da igreja, costumava jejuar com frequência e, por penitência, andava descalço mesmo no inverno. Homem de grande oração, entregava-se também ao trabalho manual com grande empenho.
Amanuense e secretário de São Pedro Damião
Aproveitando-se de sua preparação cultural, São Pedro Damião lhe deu na ermida o cargo de amanuense. É preciso dizer que, não existindo ainda a imprensa, todos os documentos e cartas eram escritos à mão por monges destros na caligrafia. Com sua grande habilidade na escrita, João logo conquistou a confiança dos demais irmãos, tornando-se também corretor dos códigos copiados por outros monges. E, posteriormente, supervisor de todos os livros e manuscritos produzidos na ermida.
Acontece que São Pedro Damião, apesar de ter grande talento, era um pouco inseguro. Por isso encarregava os monges mais capazes de revisar sua correspondência e seus escritos. Foi o que fez com São João de Lodi, confiando-lhe também o cargo de secretário e companheiro de viagens apostólicas. Entre estas estão as missões que os levaram à Alemanha e a Montecassino.
Mesmo na última viagem do reformador a Ravena, João provavelmente estava ao lado do mestre, cuja morte testemunhou em 22 de fevereiro de 1072 no mosteiro de Santa Maria Foris Portam, em Faenza.

líquias de São João de Lodi para um novo altar na Catedral (na oitava nave
à esquerda), depois de ter vestido novamente o corpo do santo e colocado
o seu próprio anel episcopal no dedo deste. A procissão está representada
neste afresco (1652-1654) de Francesco Allegrini, que se encontra na Capela
do Santíssimo Sacramento do Duomo.
Biógrafo do mestre
Não estranha que o novo prior de Fonte Avellana, Aliprando, tenha confiado a João a tarefa de redigir a biografia daquele santo. Sua Vita Petri Damiani foi composta entre os anos 1076 e 1082-84.
“A biografia, originalmente em vinte e dois capítulos (um vigésimo terceiro foi acrescentado posteriormente com os milagres post-mortem), é atual em algumas partes, e testemunha o esforço constante do biógrafo para ilustrar a personalidade histórica de Damião. Não obedecendo a uma ordem cronológica rígida, baseia-se principalmente nas obras do santo, que provavelmente ainda se encontravam na época em forma de fascículos não vinculados à Fonte Avellana.
“O biógrafo renuncia à complexidade e prossegue sobretudo o objetivo de evidenciar o vasto leque de atividades do santo reformador: isto pode ser observado sobretudo nas suas ações de legado. A missão milanesa de 1059 é narrada detalhadamente (com o uso de citações textuais da carta nº 65 de Damião), assim como a última viagem a Ravena. Pelo contrário, as legações na Alemanha e em França não são mencionadas, pois não teriam acrescentado nada de novo ao quadro geral
“[…]. O estreito relacionamento pessoal, o consequente conhecimento íntimo da vida e obra de Pedro Damião e também seu alto nível de cultura qualificaram João de Lodi para exercer outras atividades na Fonte Avellana. Pouco antes da redação da Vita, ou talvez ao mesmo tempo, a pedido do prior Aliprando ou do sobrinho de Pedro Damião, Damiano, João compilou a chamada Collectanea, uma lista das citações bíblicas mais importantes presentes em Pedro Damião e suas obras, lista que ele transcreveu de próprio punho”[iv].
Prior de Fonte Avellana
Tal era o prestígio de João de Lodi entre seus irmãos de hábito, que ele foi eleito prior entre 1082 e 1084, e depois entre 1100 a 1101.
Durante seus mandatos destacou-se pelo estilo de vida austero e pela observância incansável das regras de São Pedro Damião na vida eremita.
Por ocasião de uma fome que devastou o território de Fonte Avellana entre 1084 e 1085, João se dedicou inteiramente aos pobres que chegavam à sua ermida. Quando não tinha mais nada, já idoso e adoentado, foi então à Apúlia, então celeiro da Itália, de onde voltou carregado de cereais para seus pobres.
No final do ano de 1104, por iniciativa do legado papal, João de Lodi foi eleito bispo de Gubbio e assim evitou-se uma eleição cismática. Durante seu curto mandato trabalhou sobretudo pela reforma do clero de sua diocese. Para isso, chamou para auxiliá-lo o jovem Ubaldo de São Secondo, que mais tarde se tornou padroeiro de Gubbio. Também convenceu um ex-arcipreste da Igreja de Parma a reconciliar-se com Roma, para que o cisma existente entre as duas igrejas pudesse ser recomposto.
O venerando bispo faleceu poucos meses depois, no dia 7 de setembro de 1105, cheio de anos e rodeado do carinho do povo de Gubbio. Seu corpo está preservado na catedral da cidade da Úmbria, onde é objeto da veneração dos fiéis.
[i]Cfr. https://pt.wikipedia.org/wiki/Pataria
[ii]http://www.newadvent.org/cathen/03481a.htm).
[iii]Wikipedia, Pataria.
[iv]https://www.treccani.it/enciclopedia/giovanni-da-lodi-santo_(Dizionario-Biografico)/
Outras obras consultadas:
– https://fr.wikipedia.org/wiki/Jean_de_Lodi