“Mais vale estar a grei sem pastor, do que ter por pastor um lobo”

31 de julho — Neste dia do grande Santo Inácio de Loyola, em sua homenagem seguem alguns trechinhos (saborosos e nada ecumênicos) de uma carta dele a outro grande santo, São Pedro Canisio. A missiva é datada de 13 de agosto de 1554:

“Todos os professores públicos da Universidade de Viena e das outras, ou os que nelas ocupam função de governo, se têm má fama nas coisas referentes à Religião Católica, devem, em nosso entender, ser depostos de seu cargo.
O mesmo se diga dos reitores, diretores e leitores dos colégios particulares […]. De modo algum parece que se deva tolerar ali aqueles de quem há suspeita de que pervertem a juventude: muito menos ainda, os que são abertamente hereges. E até os estudantes de quem se veja que não poderão emendar-se facilmente, deveriam absolutamente ser despedidos […].

Conviria que quantos livros heréticos se achassem — mediante diligente pesquisa — em poder de livreiros e de particulares, fossem queimados, ou levados para fora de todas as províncias do reino. Outro tanto se diga das obras dos hereges que não sejam heréticas, como as que tratam de gramática ou retórica, ou de dialética, de Melanchton, etc., que parece deveriam ser inteiramente relegadas em ódio à heresia de seus autores, porque não convém nem nomeá-los, e menos ainda que a eles se afeiçoem os jovens, em cujo espírito se insinuam os hereges por meio de tais obrinhas; e bem podem achar-se outras mais eruditas, e isentas deste grave risco […].

Não se deveriam tolerar curas ou confessores que sejam suspeitos de heresia; e aos convencidos desta cumpriria despojar quanto antes de todas as rendas eclesiásticas, porque mais vale estar a grei sem pastor, do que ter por pastor um lobo […].

Os pregadores de heresias, os heresiarcas e, em suma, quantos se encontrem que contagiam os outros com esta pestilência, parece que devem ser castigados com graves penas. Seria bom que se publicasse por toda a parte que os que, dentro de um mês desde o dia da publicação, se arrependessem, alcançariam benigno perdão em ambos os ferros; e que, passado esse tempo, os que fossem convencidos de heresia seriam infames e inábeis para todas as honras; e até, se parecer possível, talvez fosse prudente conselho penar-los com desterro ou prisão, e até alguma vez com a morte. Porém, do último suplicio e do estabelecimento da inquisição não falo, porque parece ser mais do que pode suportar o estado presente da Alemanha.

Quem chamar os hereges de evangélicos, conviria que pagasse alguma multa, para que não folgue o demônio de que os inimigos do Evangelho e Cruz de Cristo tomem um nome contrário as suas obras. Aos hereges se há de chamar por seu nome, para que cause horror até nomear os que são tais e cobrem o veneno mortal com o véu de um nome de salvação […]”.
(“Obras completas de San Ignacio de Loyola”, Biblioteca de Autores Cristianos, Madri, 1952, carta 111, pag. 880).