
Paulo Roberto Campos
Celebrada pela Igreja neste dia 14 de setembro, a festa da Exaltação da Santa Cruz recorda um dos maiores paradoxos da História: o instrumento de suplício reservado aos criminosos tornou-se, depois do Calvário, o sinal por excelência da vitória. A suprema Vitória de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Redenção.
Poucas transformações de significado na História foram tão profundas quanto a da Cruz.
No mundo romano, ela era instrumento de suplício e sinal de extrema infâmia. A crucifixão destinava-se sobretudo a escravos, rebeldes e criminosos. Depois da morte de Jesus Cristo no Calvário, porém, aquele madeiro destinado à vergonha tornou-se o mais universal, magno e reconhecível símbolo do cristianismo.
É esse extraordinário triunfo que a Igreja celebra em14 de setembro, festa da Exaltação da Santa Cruz.
De instrumento de suplício a sinal de vitória
A origem histórica da celebração remonta ao século IV. Segundo antiga tradição, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, encontrou em Jerusalém a verdadeira Cruz de Cristo durante as escavações realizadas nos lugares da Paixão.
Constantino mandou então erguer no local um grandioso complexo de basílicas destinado a perpetuar a memória da morte e da Ressurreição de Nosso Senhor. Os santuários foram solenemente dedicados em setembro do ano 335, e no dia 14 a relíquia da Santa Cruz foi apresentada à veneração dos fiéis.
A data permaneceria para sempre ligada à glorificação do instrumento da Paixão. A Cruz deixava de ser apenas recordação do sofrimento. Tornava-se um troféu de vitória.
Jesus havia anunciado esse paradoxo: “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32). E, referindo-se à serpente de bronze erguida por Moisés no deserto, declarou: “Assim também tem de ser levantado o Filho do Homem, a fim de que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3,14-15).
No Calvário, portanto, aquilo que aos olhos humanos parecia uma derrota transformou-se na vitória sobre o pecado e a morte.
A Cruz roubada e reconquistada
Séculos depois, outro episódio histórico reforçaria o caráter triunfal da festa. Em 614, Jerusalém foi conquistada pelos persas do rei Cosroes II. Entre os tesouros levados da Cidade Santa encontrava-se a adorável relíquia da Cruz.
O imperador bizantino Heráclio iniciou então uma longa campanha militar contra os persas e, depois de sucessivas vitórias, conseguiu que a relíquia fosse restituída. A Santa Cruz retornou solenemente a Jerusalém no início do século VII, sendo novamente apresentada à veneração dos cristãos.
A antiga festa adquiriu, assim, um significado ainda mais eloquente: a Cruz fora ultrajada e levada pelos inimigos; retornava triunfalmente à Cidade Santa. Era como uma imagem histórica do próprio mistério que ela representa: humilhada, mas glorificada; abatida aos olhos do mundo, mas vitoriosa.
Sinal inseparável de Jesus Cristo
Depois da Paixão de Nosso Senhor, já não é possível separá-Lo de sua Cruz. Por isso, desde os primeiros séculos, os cristãos passaram a traçar sobre si o sinal da cruz. Colocaram-na em seus lugares de culto, levaram-na consigo e fizeram dela um sinal cotidiano de profissão da fé.
Essa prática chegou a provocar o sarcasmo do imperador Juliano, chamado “o Apóstata”, que reinou de 361 a 363 e procurou restaurar o paganismo no Império Romano. Ele censurava os cristãos precisamente por venerarem o madeiro da Cruz e reproduzirem por toda parte o seu sinal.
A censura, involuntariamente, testemunhava a força que o símbolo já adquirira. O que para os pagãos continuava sendo sinal de opróbrio era, para os cristãos, o sinal da Redenção.
São Paulo exprimiu essa inversão com palavras ecoam até nos presentes dias: “Quanto a mim, não pretendo jamais gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14).
A Cruz num mundo que procura afastá-la
A celebração deste dia 14 de setembro conserva uma atualidade particular. Em numerosas sociedades que nasceram sob influência cristã, assiste-se hoje a tentativas de relegar a Cruz exclusivamente ao âmbito privado, quando não de retirá-la de escolas, repartições e espaços públicos. Aquilo que durante séculos presidiu igrejas, hospitais, universidades, tribunais, praças e caminhos passa, em certos ambientes, a ser considerado um sinal incômodo.
É precisamente diante dessa tendência que a festa da Exaltação adquire toda a força de seu nome. A Santa Igreja não celebra simplesmente a Cruz, mas sua Exaltação.
Ela ergue solenemente aquilo que o mundo antigo desprezou e aquilo que, ainda hoje, certas correntes procuram ocultar. Proclama que a Cruz não representa a derrota, mas a vitória; não o desespero, mas a esperança; não o fim, mas a passagem para a Ressurreição.
A antiga liturgia da festa exprimia essa confiança numa breve e bela oração depois da Comunhão: “Protegei-nos, Senhor nosso Deus, e, tendo-nos dado a alegria de nos gloriarmos de vossa santa Cruz, fazei que sejamos sempre por ela defendidos.”
“Todo o Evangelho em um só sinal”
![]() |
| Triunfo de Cristo sobre o paganismo, Gustave Doré (1832 – 1883). The Joey and Tobey Tanenbaum Collection. |
Talvez poucas definições sintetizem tão bem o significado da Cruz quanto a atribuída ao grande orador sacro francês Jacques-Bénigne Bossuet, bispo de Meaux e uma das maiores vozes do púlpito católico do século XVII:
“O que é a cruz, senão o resumo do Evangelho, todo o Evangelho em um só signo, em uma só letra? Por que não a havemos de oscular? Por que não nos prostraremos diante dela?”
E prossegue, recordando São Paulo:
“Eu não sei mais pregar senão a Jesus, e a Jesus crucificado.”
A Cruz é, assim, um compêndio silencioso da fé cristã. Nela se encontram a gravidade do pecado, a justiça e a misericórdia de Deus, o sacrifício de nosso Divino Redentor, o preço da salvação e a promessa da Ressurreição.
Por isso, transcorridos quase dois milênios do holocausto no alto do Calvário, ela continua erguida sobre altares e torres, presente nas casas, carregada ao peito e traçada diariamente por milhões de fiéis.
Os impérios que a condenaram desapareceram. Os perseguidores que quiseram suprimi-la passaram. A Cruz permaneceu de pé.
E a cada 14 de setembro a Igreja volta a erguê-la diante do mundo, repetindo a grande proclamação cristã: o instrumento da morte tornou-se sinal da Vida; o símbolo da ignomínia tornou-se troféu de glória; o madeiro do Calvário tornou-se o estandarte da Redenção.


,%20The%20Joey%20and%20Tobey%20Tanenbaum%20Collection.jpg)