
Paulo Roberto Campos
Há homens cuja palavra desaparece tão logo termina o discurso. E há outros cuja voz atravessa os séculos.
Entre estes últimos encontra-se São João Crisóstomo (c. 347–407), Bispo de Constantinopla, Confessor e Doutor da Igreja, cuja memória litúrgica a Igreja celebra em 13 de setembro.
Considerado um dos quatro grandes Doutores da Igreja Oriental, João Crisóstomo tornou-se célebre sobretudo pela extraordinária força de sua pregação. Foi justamente sua incomparável eloquência que lhe valeu o nome pelo qual passaria à História: Chrysóstomos, palavra grega que significa “Boca de Ouro”.
E não se tratava apenas de uma eloquência feita de belas palavras. Sua oratória possuía aquela qualidade, muito mais rara, de unir a beleza da forma à firmeza das convicções. São João Crisóstomo falava para ensinar, converter, corrigir e denunciar.
Suas numerosas homilias, especialmente aquelas dedicadas à explicação das Sagradas Escrituras, constituem uma das parcelas mais preciosas de sua imensa obra. Nelas aparece o pregador vigoroso, capaz de se dirigir tanto aos humildes quanto aos poderosos, sem adaptar a verdade à posição social de quem o escutava.
Essa admirável intransigência haveria de lhe custar caro.
Elevado à sede episcopal de Constantinopla, então capital do Império Romano do Oriente, São João Crisóstomo não hesitou em denunciar abusos, injustiças e escândalos, inclusive quando envolviam personagens influentes da corte suprema…
Entrou assim em conflito com a imperatriz Élia Eudóxia, esposa do imperador Arcádio. As tensões culminaram em perseguições e no exílio do santo. Em determinado momento, receosa de que acontecimentos adversos fossem um castigo divino pela expulsão do bispo, Eudóxia favoreceu seu retorno. A reconciliação, entretanto, durou pouco. Outros conflitos terminaram por levá-lo novamente ao desterro.
São João Crisóstomo morreria longe de sua sede episcopal, em 407, durante a penosa viagem de exílio.
Séculos depois, São Pio X haveria de proclamá-lo patrono dos oradores cristãos. Dificilmente poderia haver patrono mais apropriado: nele, a palavra não era ornamento da verdade, mas instrumento para proclamá-la.
Rico não é sinônimo de ladrão
Um aspecto particularmente interessante de sua pregação diz respeito à riqueza e à defesa das desigualdades, conforme os desígnios de Deus.
São João Crisóstomo foi severíssimo contra a avareza, a exploração dos pobres, a apropriação dos bens alheios e o uso egoístico das riquezas. Mas essa severidade não o levava a identificar, pura e simplesmente, riqueza com injustiça.
A distinção é importante.
Em nossos dias, difundiu-se em certos ambientes religiosos uma visão segundo a qual a desigualdade de bens seria, em si mesma, quase necessariamente suspeita. A riqueza passa então a ser apresentada como se trouxesse consigo uma espécie de culpa original, enquanto a igualdade econômica tende a aparecer como um ideal moral.
Em memória de São João Crisóstomo, segue um trecho muito eloquente, e muito oposto ao que pregam os atuais padres progressistas, adeptos do miserabilismo — do tipo tribalista ou do tipo cubano — e que se ocupam em esbravejar contra a riqueza, como fonte das desigualdades sociais, como se o igualitarismo comunista fosse o ideal para a sociedade.
Não era assim que raciocinava o grande Doutor de Constantinopla.
Ele distinguia com clareza a legítima posse dos bens da avareza; o homem rico, do ladrão; a propriedade, da injustiça.
É o que se encontra nesta passagem de extraordinária força:
“Não me cansarei de dizer que não acuso ao rico, mas ao ladrão. Rico não é sinônimo de ladrão, nem opulento o é de avaro.
Distingui bem, e não confundais coisas tão diversas.
Sois ricos? Não há nenhum mal nisto. Sois ladrões? Eu vos acuso.
Tendes o que vos pertence? Gozai-o em boa hora.
Vos apoderais do bem de outro? Levanto minha voz para vos delatar…
Os ricos são meus filhos; os pobres também são meus filhos. O mesmo ventre deu à luz uns e outros; ambos nasceram das mesmas dores de parto.
Se, pois, atacas o pobre, eu te denuncio; porque o pobre não sofre um dano tão grande quanto tu. Para ele, o prejuízo se limita ao dinheiro; em ti, porém, o dano atinge a alma.”
(São João Crisóstomo, homilia tradicionalmente intitulada Segunda Homilia sobre Eutrópio [após seu cativeiro], § 3).
A passagem é admiravelmente equilibrada.
O santo não condena a riqueza. Não diviniza a pobreza, nem transforma a diferença de condições sociais numa injustiça. O critério moral está em outra parte: como os bens foram adquiridos e como são utilizados.
“Os ricos são meus filhos; os pobres também.”
Talvez esta seja a frase que melhor sintetize sua posição. O pastor não pode incitar uma classe contra outra. Deve ensinar a justiça a ambas; deve haver harmonia entre ambas as classes. Ao pobre, não cabe odiar o rico simplesmente por ser rico; ao rico, não é permitido esquecer que seus bens trazem consigo graves deveres diante de Deus e deveres de caridade para com o próximo.
Há nisso uma distância considerável em relação a certas pregações contemporâneas marcadas por um igualitarismo de inspiração marxista, nas quais a riqueza parece ser tratada como um mal em si e a supressão das desigualdades como solução quase automática para os problemas sociais.
São João Crisóstomo coloca a questão num plano mais alto.
O verdadeiro drama não consiste simplesmente em possuir muito ou possuir pouco. Consiste em praticar a justiça ou a injustiça; em usar os bens legitimamente ou obtê-los pela fraude; em socorrer o necessitado ou oprimi-lo.
E a advertência final digna da “Boca de Ouro” conserva, depois de mais de dezesseis séculos, toda a força de uma sentença pronunciada do alto de um púlpito de Constantinopla: o pobre injustiçado pode perder seus bens; quem pratica a injustiça e quem prega a luta de classes marxista corre o risco de perder a própria alma — o que é infinitamente pior…

