
Jorge Saidl
Uma colina coberta com milhares de cruzes. Algo provavelmente único que tem atraído um constante número de peregrinos e turistas.
O pequeno monte fica na Lituânia, uma pequena nação atualmente pouco conhecida por muitos, embora tenha sido em tamanho o maior país da Europa no século XV, tornando-se uma grande potência com a união com a Polônia no século seguinte.
A comunidade lituano-polonesa sofreu partições a partir de 1772, acabando a Lituânia sendo abocanhada pelo Império Russo, tornando-se independente apenas em 1918, caindo sob as garras do comunismo em 1939.
Sob a opressão czarista, muito mais ferrenha no tempo soviético, o sentimento de resistência lituano se manifestava de várias maneiras.

Um importante símbolo dessa resistência foi o Kryžių kalnas, que provavelmente a partir de 1830 foi sendo coberto por cruzes grandes e pequenas, bem como por algumas imagens e rosários.
Durante o período soviético, os comunistas arrasaram várias vezes o local, mas o povo lituano sempre voltava à noite para reconstruir a colina e colocar novas cruzes.
Tendo o país sido liberto da opressão russa em 1990, o pequeno monte tornou-se um local de peregrinação e de visitantes, crescendo a devoção de se colocar cruzes, estimando-se que atualmente o número delas seja mais de 100 mil.
Nos presentes dias os objetos de piedade aí colocados não têm mais o significado de resistência, mas manifestam outras intenções piedosas. Neste sentido é oportuno relatar dois episódios dos últimos anos:
Os três países bálticos — Lituânia, Letônia e Estônia — não têm sistema de defesa aérea próprio. Assim, a NATO escala um país-membro por rodízio para assumir esta tarefa por um período determinado. Em fins de 2007 foi a vez de Portugal.

Assim como no nosso Brasil, onde Pedro Álvares Cabral logo ao chegar plantou uma grande cruz no solo recém conquistado, os membros da Força Aérea Portuguesa resolveram fazer o mesmo ao chegarem para a missão nos países bálticos, plantando uma cruz de dois metros de altura na famosa colina, tendo o bispo local, Dom Eugenijus Bartulis, que na época era também capelão das Forças Armadas lituanas, organizado uma pequena cerimônia em que benzeu o que chamou de “Cruz dos Templários portugueses”. A mencionada cruz foi elaborada por voluntários civis e militares em Lisboa com material da oficina dos aviões e pintada com sobra de tinta de um avião Falcon. Um voo rasante de uma das aeronaves estava programado para a cerimônia, mas não se realizou por falta de condições atmosféricas.
Alguns anos depois, um outro destacamento militar português organizou uma caminhada de 20 km, composta de seus membros, desde a base aérea até a colina
Seguindo o exemplo dos portugueses, outras missões de defesa aérea da NATO colocaram igualmente cruzes. E os próprios portugueses em missões posteriores repetiram o gesto, de modo que se formou um recanto de cruzes portuguesas no caminho de acesso à colina.
Em 2023 uma outra cruz bem maior veio se juntar a este grupo, não para lembrar algum feito militar, mas para celebrar os trinta anos ininterruptos da visita anual de uma delegação das TFPs (Sociedades de Defesa da Tradição, Família e Propriedade) e do grande abaixo assinado de mais de 5 milhões de assinaturas promovido por estas em 1990 em diversos países do mundo em prol da independência da Lituânia. Da mesma forma, Sua Excia. o bispo Dom Bartulis inaugurou e benzeu a referida cruz.
A partir de então, o programa da delegação anual das TFPs inclui uma visita ao Morro das Cruzes, como se vê na foto.



