A guerra russa de fakes news

Luis Dufaur

“Toda a história humana é a história da arte de enganar”,1 instruiu o general Alexander Vladimirov [´foto abaixo] ao apresentar seu livro Teoria Geral da Guerra em uma escola de cadetes em Moscou. Ele é vice-presidente do Colégio de Especialistas Militares da Rússia e mestre na técnica de iludir por meio do noticiário e nas ações da guerra — em russo maskirovka (pequeno baile de máscaras), no Ocidente guerra psicológica ou guerra de informação, enquanto os mais modernos falam em fake news ou em guerra híbrida.

A Crimeia foi invadida por “pequenos homens verdes” desarmados e sem insígnias, levados em caminhões militares sem identificação. A evidência era de soldados russos, mas a mídia ocidental insistia em não saber de onde vinham. Putin disse em conferência de imprensa que eram “patriotas voluntários” de férias, mas cinco semanas depois glorificou o operativo das tropas russas, não se incomodando com a contradição. A mentira deu retorno, tendo sido uma das maiores vitórias da maskirovka.

Mentira como arma de guerra

“A estratégia russa, fora e dentro do país, é dizer que a verdade não existe”, explicou à BBC Peter Pomerantsev, que trabalhou vários anos na TV russa. “É um tipo de cinismo que tem muito eco no Ocidente […] e os russos confiam nesse cinismo e o utilizam num contexto militar”. A Rússia aprimorou o uso da mentira até a perfeição, registrou a jornalista Lucy Ash da BBC.

No número 55 da rua Savushkina, em São Petersburgo, Putin mantém uma central de “guerra de informação” destinada a espalhar na Internet palavras de ordem com milhares de pseudônimos. Seu nome oficial é Internet Research Agency [foto ao lado], também chamada ‘fábrica de trolls’. “O termo deriva da expressão ‘trolling for suckers’ (enganando os trouxas)”.

Os trolls (enganadores) recebem todos os dias instruções técnicas como esta, do dia 28 de fevereiro: “Ideia central: criar a opinião de que oficiais ucranianos estavam envolvidos na morte do oposicionista russo”. Os comentários não devem ser identificáveis ideologicamente e parecer bem documentados para viralizar em artigos, comentários e tuites pró-russos.

A jornalista ucraniana Lyudmila Savchuk [foto ao lado] alistou-se nessa agência fantasma para denunciá-la, como o fez. Outra jornalista, a finlandesa Jessikka Aro [foto abaixo], dissimulou-se entre “os propagandistas pró-Kremlin nas redes sociais” e ficou estarrecida: eles faziam uma guerra invisível para assediar, desalentar, intimidar e caluniar.

O general Valeri Gerassimov, chefe do Estado Maior russo (morto em combate, segundo Kiev, ou vítima de expurgo em Moscou), explicou no semanário Military-Industrial Courier que “as guerras não são mais declaradas, mas simplesmente começam e prosseguem por vias que não são familiares. O uso escancarado das forças militares é só para a fase final do conflito”.

Segundo o Centro de Pesquisas para a Segurança e a Estratégia da Letônia, “a nova forma de guerra não pode ser caracterizada como campanha militar”. E Dmitry Kiselyov, considerado “o chefe propagandista do Kremlin”, sublinhou que hoje a “guerra de informação” é “a forma primordial de guerra”.

Alexander Dugin, filósofo ocultista, favorito de Putin

Falsa tese: “a Nova Rússia é conservadora”

Houve “tradicionalistas” católicos que inverteram a Mensagem de Fátima em favor da Rússia contra o Ocidente, chegando a defender que após o Concílio Vaticano II o Espírito Santo saiu de Roma e se instalou em Moscou… (Foto: igreja ortodoxa russa).

Outro favorito de Putin, o filósofo e ocultista Alexander Dugin [foto acima], prega uma “revolução conservadora”, enquanto “oligarcas” putinianos fazem atraentes promessas aos movimentos conservadores do mundo. Nem sempre Putin as cumpre, pois o importante é enganar, por interesse estratégico, sem moral.

Falando na Academia Militar de Moscou, o general Gerassimov insistiu que “as fronteiras entre a guerra e a paz se apagaram no século XXI”. Hoje a ofensiva visa submergir o inimigo no caos mental, espalhando fakes que apagam os limites entre o real objetivo e a ficção pré-fabricada.

Quando os adversários não souberem mais no que acreditar, estarão vencidos. El Mundo, diário de Madrid, observa que muitos direitistas crêem mais no líder russo do que nos nacionais. Nesse sentido, o semanário alemão Die Zeit observa que muitos alemães acreditam mais em Putin do que no seu próprio chanceler. Agentes da FSB (ex-KGB) se infiltraram na campanha eleitoral de Trump, e Jeanne Smits, ex-diretora do jornal Présent,de Le Pen, espantou-se com o fato de “tradicionalistas” católicos inverterem a Mensagem de Fátima em favor da Rússia contra o Ocidente, chegando a defender que após o Concílio Vaticano II o Espírito Santo saiu de Roma e se instalou em Moscou… Espantou-se também com o exagero de apresentarem Putin investido da “missão providencial” de salvar o Cristianismo.

Para a TV de Putin a informação (câmara de vídeo) pode ser mais efetiva que um fuzil Kalashnikov

Essa ofensiva bate na tecla de que a “nova Rússia” é o baluarte da moral tradicional cristã diante das ideologias LGBT, de gênero, abortistas, antifamília etc., subprodutos da Nova Ordem Mundial, com as quais os hipercapitalistas afogariam o Ocidente, omitindo que esses males existem em grau exacerbado na própria Rússia.

Como fazer desaparecer a Igreja Católica dizendo ao mesmo tempo que Ela está sendo salva por quem a extingue? Jeanne Smits informa que o think-tank “Katehon”, do citado ideólogo gnóstico Dugin, é mantido pelo multibilionário Konstantin Malofeev, um “próximo entre os próximos” de Vladimir Putin. Nesse think-tank o “tradicionalista” Charles Upton defende que a “nova-Rússia” e o Patriarcado de Moscou vão salvar a Igreja do Ocidente, extinguindo os Papas de Roma. Smits conclui que se ela fosse da KGB, não agiria de outro modo para espalhar que a Igreja Católica fracassou.

A professora Cécile Vaissié, da Universidade de Rennes 2, especializada em Estudos Soviéticos e Pós-Soviéticos e autora do livro Les réseaux du Kremlin en France (As redes do Kremlin na França), mostra que as redes de propaganda sub-reptícia da URSS, outrora centradas no “pacifismo”, nos últimos anos assumiram bandeiras “conservadoras” e de “extrema direita”. Na realidade, diz ela, essas são práticas da velha KGB para que as pessoas percam o discernimento e não entendam o que está acontecendo.

Alexeï Komov, representante do Patriarcado de Moscou nos Congressos Mundiais da Família, defende que a Revolução Bolchevista de 1917 nada teve de russa. Ora, essa Revolução introduziu o comunismo, proclamou o amor livre, legalizou o divórcio e o aborto sem limites. Mas “convertido” pelo Patriarcado de Moscou em defensor da família, Komov tentou escapar da contradição dizendo haver na Rússia um “milagre” que faz renascer os valores tradicionais da família e da tradição, e que o regime de Stalin “acabou mais favorável à família”.2

A estratégia falseia conceitos e posições para ludibriar as vítimas. Dugin comemora: “Nós os embaralhamos passando do direitismo ao esquerdismo e vice-versa. Seduzimos ao mesmo tempo a extrema-direita e a extrema-esquerda”. Assim se forja, como observa Smits, um “Putin salvador da Cristandade”, que ao mesmo tempo é admirador de Stalin!

Onda de expurgos na Rússia de Putin

Em março de 2022, Putin ordenou limpar seu país da “escória de traidores” que trabalharia para os EUA3, dando notícias desastrosas da guerra e criticando-a no seu círculo íntimo. A ameaça saiu depois que Marina Ovsyannikova, da TV estatal Channel One, exibiu um cartaz atrás da locutora do noticiário, com os seguintes dizeres: “Eles estão mentindo para você”. Quase 15 mil russos já foram detidos em protestos contra a guerra, dezenas de milhares se exilaram e uma nova lei pune com até 15 anos de prisão quem noticiar o malogro russo na Ucrânia.

Multiplicam-se desde então as mortes misteriosas de oligarcas e de suas famílias. A maioria foi alvo de “suicídios”, dentro e fora da Rússia. Apenas alguns exemplos:

  • Alexander Tyulyakov, vice-diretor do tesouro da todo-poderosa empresa estatal de energia Gazprom, apareceu enforcado na garagem de seu apartamento. Os médicos legistas foram expulsos do local pelos serviços de segurança.
  • Mikhail Watford, magnata do petróleo e do gás, foi encontrado nas mesmas condições em sua casa em Londres.
  • Sergei Protosenya [foto acima], ex-CEO da gigante russa do gás Novatek, teve o mesmo fim em Lloret del Mar, na Espanha, enquanto sua esposa e sua filha foram esfaqueadas até a morte.
  • O milionário Vasily Melnikov, líder da farmacêutica MedStom, também foi morto a facadas, junto com sua esposa e seus dois filhos, em seu apartamento de Moscou.
  • Vladislav Avaev, ex-vice-presidente do Gazprombank, sua esposa e sua filha foram crivados de balas na capital russa.
  • Vladislav Surkov, o “Rasputin de Putin”, foi colocado em prisão domiciliar sem saber as razões.

Os serviços de inteligência e das forças armadas tampouco ficam impunes:

  • Sergei Shoigu, ministro da Defesa, reapareceu em trajes civis.
  • O general Valery Guerassimov [foto acima], chefe supremo das Forças Armadas, está ‘volatilizado’ desde 11 de março e não apareceu na solene parada militar do dia 9 de maio.
  • Após dizer que a invasão ia “mais devagar do que o esperado”, Viktor Zolotov [foto abaixo], chefe da Guarda Nacional, nunca mais foi visto.
  • Para os serviços de inteligência britânicos, cerca de 150 agentes dos serviços russos foram dispensados ou presos, como seu diretor, o tenente-coronel Serguey Beseda, que dorme na sinistra prisão de Lefortovo.
General Viktor Solotov, chefe da Guarda Nacional, criticou a guerra e está desaparecido.

As pesquisas registram um apoio popular esmagador à campanha militar. Mas quem ousaria estar em desacordo quando a lei criminaliza as críticas à guerra? Magnatas se manifestam timidamente porque as sanções do Ocidente congelaram bilhões de dólares em suas contas no exterior. Anatoly Chubais, tsar da privatização da era Yeltsin, está foragido. A chefe do Banco Central da Rússia, Elvira Nabiullina, apresentou sua renúncia, mas Putin não aceitou.

Bilionários, banqueiros e ex-funcionários falam sob anonimato que Putin não ouve ninguém, está cada vez mais isolado e só dá crédito a um punhado de oficiais da linha-dura.

O déspota russo poderá ver-se obrigado a ceder o controle da guerra durante uma cirurgia para extirpar um câncer.4 Porém, como sói acontecer com os ditadores, desconfia de todos, considerando-os “traidores”. A exceção seria Nikolai Patrushev [foto ao lado], chefe do Conselho de Segurança e um dos arquitetos da guerra. Segundo consta, Putin padece há 18 meses de um câncer abdominal e de Parkinson avançado, mas vem adiando a cirurgia para anunciar o triunfo na Ucrânia no Dia da Vitória. Ele quer uma guerra total, com a mobilização em massa dos homens em condição de lutar, mas na imensa passeata de 9 de maio repetiu coisas comuns já ditas durante menos de 10 minutos, depois sentou-se e se cobriu com uma manta aumentando ainda mais as especulações sobre sua saúde.

Outra fraqueza dos autocratas: Putin não confia em novas medicações, seu médico foi afastado, acusado de charlatão, e seu estado psicótico é comparado ao de Hitler nos últimos dias. Um dos maiores temores é que, antes de desaparecer, ele acabe ordenando a guerra atômica.

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Notas:

1. Russian International Affaires Council. Moscou 15-04-2014.

2. bit.ly/3w7UL6n

3. bit.ly/3yjrQPp

4. bit.ly/3FkVVjl