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Fim de agosto na natureza e no campo. Período assinala transição importante nos ciclos biológicos e agrícolas
Evaristo de Miranda
Agosto não é o mês do desgosto, como vaticina um dito popular. Agosto marca o auge do inverno e da estação seca na maior parte do Brasil. É um período de transição crucial. A escassez severa de água e recursos força adaptações drásticas na fauna e na flora. O mesmo ocorre no mundo rural, com as atividades agropecuárias. Na natureza, a fauna avança os preparativos para seus ciclos reprodutivos. A vegetação se prepara para explodir com as primeiras chuvas da primavera. A mesma fecundidade e energia alimentam o trabalho e a esperança dos produtores.
Grandes mudanças ocorrem em agosto na alimentação de aves e morcegos. No Pantanal é o auge da vazante, também em curso em parte do Cerrado e da Amazônia. Com a retração drástica dos rios e lagoas, peixes, moluscos e crustáceos ficam confinados em poças rasas e baías. Isso cria um verdadeiro banquete de peixes expostos, atrai revoadas imensas de aves aquáticas e praticantes da pesca esportiva.

Garças, colhereiros, biguás e tuiuiús encontram facilidade para caçar. Com fartura de peixes, agosto oferece condições favoráveis ao nascimento dos filhotes e à criação das ninhadas. Certeza de comida fácil. Aves aquáticas, os trinta-réis (Thalasseus) e o talha-mares (Rynchops niger), com o recuo dos rios, depositam seus ovos nas praias de areia. Uma forma de aproveitar o calor da areia e do sol.
Alguns lagartos, como as iguanas, depositam seus ovos em lugares arenosos, disponíveis nesta época no Centro-Oeste, na Amazônia e no Nordeste. Garças, colhereiros, cabeças-secas e tuiuiús, já estão com os ninhos cheios em agosto. No Pantanal, a arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) inicia seu ciclo reprodutivo nesta época. Formam casais para preparar e defender os ninhos nos troncos de manduvis.
Em agosto, a paisagem cinzenta e seca no Pantanal e no Cerrado sofre uma transformação visual impressionante com a explosão da floração dos ipês, especialmente o ipê-rosa e o ipê-amarelo, e dos cambarás. Essas árvores perdem as folhas para economizar água. Investem sua energia em flores exuberantes, colorindo o topo das matas ciliares e cerradões. Oferecem alimento, néctar, pólen e pétalas para diversas aves e morcegos, além de nutrirem beija-flores, abelhas e outros insetos e pássaros.
Proximidade da primavera se reflete na fauna e flora

Agosto, para os morcegos frugívoros, é um mês de escassez de frutos nas florestas. Eles mudam os hábitos alimentares. Passam a consumir o néctar e o pólen das flores, inclusive dos ipês. A flora do cerrado começa a acordar para a primavera no final de agosto. Morcegos dos gêneros Artibeus, Vampyrops, Carollia e Phyllostomus participam desses processos ecológicos como polinizadores ou dispersores de sementes. Alguns percorrem distâncias maiores em busca de árvores pioneiras, com frutificação no período seco.
Agosto marca o início da temporada de acasalamento das emas. O macho dominante corteja um harém de até oito fêmeas, através de danças e vocalizações graves. Depois, abre uma clareira rasa no solo para um ninho coletivo. Ali, as fêmeas de seu grupo depositam até 80 ovos. Após a postura, o macho permanece junto aos ovos. No fim de agosto e início de setembro, as fêmeas vão embora procurar outros parceiros. O macho assume sozinho a tarefa de chocar e proteger a ninhada de raposas, gambás e outros animais.
Para quem vive no campo, sobretudo nos cerrados do Mato Grosso, é tempo de observar as ninhadas do lobo-guará. No Sudeste e Centro-Oeste, as fêmeas têm o cio em maio. Após uma gestação de cerca de 60 dias, começam a parir em agosto. Cada ninhada tem, em geral, três filhotes. Após a amamentação, elas procuram um de seus alimentos preferidos, a fruta-de-lobo, a lobeira (Solanum lycocarpum). Os lobinhos, de cor escura, crescem comendo outras frutas, pequenos roedores e aves, como filhotes de emas.
No Sul, o final de agosto marca o fim do inverno rigoroso. Aves aquáticas conhecidas dos gaúchos e orizicultores, como a marreca-caneleira, o marreco-peva, o cisne-de-pescoço-preto (Cygnus melancoryphus), o cisne-coscoroba (Coscoroba coscoroba), diversos patos e caneleiros, se agrupam nos banhados, lagoas e lavouras de arroz inundadas. Elas buscam parceiros para acasalar e locais para seus ninhos. Estimulados pelo aumento gradual das horas de luz solar, os machos exibem plumagens nupciais mais vistosas. Começam as exibições de cortejo na água. Embora a postura dos ovos ocorra mais na primavera, agosto é crucial para a disputa de territórios e formação dos casais monogâmicos. Eles iniciam a construção de ninhos, escondidos na vegetação mais densa vizinha aos pântanos.
Agosto é um dos meses mais severos da seca no semiárido nordestino. O termo Caatinga (do tupi caa=mata e tinga=branca) atinge seu significado literal. Grande parte das plantas arbustivas perde totalmente suas folhas. É uma estratégia evolutiva extrema para evitar a perda de água por evaporação.
A paisagem ganha aspecto de “natureza morta”, dominada por galhos secos, cinzentos e retorcidos, além de solos rachados. Espécies como a umburana e o juazeiro resistem à seca. Essa aparência de morte é apenas uma dormência. O aspecto seco da Caatinga esconde uma vegetação viva, capaz de reverdecer rapidamente após as primeiras chuvas. Dificilmente pega fogo ou propaga o fogo. A vegetação nativa é pouco comburente, não é facilmente inflamável, nem fornece combustível contínuo. A Caatinga é classificada como um ecossistema “independente do fogo”, com eventos naturais raros.
Plantio e colheita se alternam nas regiões do país

Na natureza, agosto prepara a vida para a primavera. No campo, prepara-se a próxima safra. Em agosto, a agricultura brasileira foca intensamente na reta final da colheita da safrinha de grãos, do algodão e de diversas culturas perenes, além do preparo de máquinas e solos para a safra de verão. As atividades variam devido às diferenças climáticas entre as regiões do país.
No Centro-Oeste, a colheita do milho de segunda safra está em fase de finalização nas principais áreas produtoras do Mato Grosso e de Goiás. O tempo seco acelera a perda de umidade natural dos grãos, facilita a colheita, o transporte e a armazenagem. É período de colheita intensa do algodão no Mato Grosso. A ausência de chuvas preserva a qualidade da fibra. Para produtores de grãos, agosto faz parte do período de vigência do vazio sanitário da soja. Os produtores realizam a manutenção de máquinas e o planejamento do plantio previsto para setembro.
No Sudeste, em agosto avança a colheita do café arábica em Minas Gerais e São Paulo e do conilon no Espírito Santo. O clima seco de agosto é ideal para a secagem dos grãos nos terreiros. A colheita da cana-de-açúcar segue em ritmo acelerado em São Paulo e Minas Gerais. A falta de chuvas favorece o acúmulo de açúcares e favorece sua concentração (ATR) nas canas. Na citricultura, a colheita da laranja, tanto para a indústria de suco quanto para o mercado de mesa, prossegue no cinturão citrícola paulista e mineiro.
No Sul, diferentemente do restante do país, a região está em pleno ciclo das culturas de inverno. O trigo avança pelas fases de perfilhamento e florescimento no Rio Grande do Sul e Paraná. Também florescem a aveia branca, a cevada e a canola. Em algumas áreas mais quentes e com umidade residual no solo, inicia-se o plantio do milho de primeira safra. Na horticultura é tempo de plantio e manejo de hortaliças adaptadas ao frio, como acelga, beterraba, espinafre e rúcula.
No Nordeste é tempo de colheita no Matopiba. A finalização da colheita do milho safrinha e do algodão abrange o oeste da Bahia, Maranhão e Piauí. Na fruticultura irrigada, no Vale do rio São Francisco, na Bahia e em Pernambuco, a colheita e a manutenção da uva e da manga seguem ativas, graças ao uso intenso de irrigação tecnológica.
Agosto, no Norte, é tempo de colheita da mandioca e de manejar culturas perenes: cacau, café e açaí. Em Rondônia e Tocantins, como no Centro-Oeste, os produtores finalizam a colheita do milho e preparam os campos para o início das chuvas da nova safra. Gerenciam a escassez de pastagens e adotam práticas de prevenção e controle do fogo, como a abertura e manutenção de aceiros.
Na natureza e na agricultura, agosto é menos um fim e mais uma espera fecunda. Agricultores e pecuaristas seguem os ciclos cósmicos das estações. O agricultor é o primeiro filósofo do tempo. Ao contrário da imediatidade do mundo moderno, o trabalho no campo impõe uma virtude esquecida: a paciência. Não se força uma semente a germinar; aguarda-se o seu momento. Cada estação não é uma simples mudança de cenário para a agricultura brasileira. É uma ordem imutável à qual o homem do campo ajusta seu esforço, com paciência, trabalho, consciência e muita tecnologia.