CRISTÃOS NO IRAQUE

  • Plinio Maria Solimeo

O nascimento do Menino Deus alegrou todo o universo, pois indicava que estava próxima a Redenção do gênero humano.

         Embora com a paganização do mundo moderno o Natal tenha perdido quase todo seu significado religioso adquirindo um aspecto apenas comercial, em algumas partes, como entre os perseguidos cristãos do Iraque, ele é ainda comemorado com alegria e como uma luz de esperança no meio das trevas.

         É sobre essa esperança que a organização italiana La Nuova Bussola Quotidiana “Um grupo de jornalistas católicos, unidos pela paixão pela fé” nos traz em uma elucidativa entrevista feita por Antonio Tarallo a uma freira católica da Igreja Caldéia.

         Introduzindo a reportagem, Tarallo comenta na Bussola Quotidiana:

“O mistério do Natal está encerrado na Luz; e se as trevas parecem ter a vantagem, para os cristãos a palavra esperança se torna ainda mais brilhante, mais forte, justamente quando as trevas parecem estar ganhando. A Nuova Bussola Quotidiana quis ouvir, nos mesmos dias em que se celebra a Luz do Menino Jesus, uma voz que vive sua missão nesta terra [Iraque]. Após a invasão do Estado Islâmico na terra de Abraão, [esta] se tornou uma terra de perseguição. A Irmã Narjis, freira pertencente á Igreja Católica Caldeia […] da Congregação das Filhas do Sagrado Coração de Jesus […] [fala com] Sua voz firme, decisiva e profunda: ela não tem medo, assim como suas companheiras de hábito e como os cristãos que se esforçam para viver sua fé em um país tão devastado pela guerra”.

         É preciso dizer que a Igreja Católica Caldéia à qual pertence a Irmã Narjis, surgiu em 1830 quando, depois de muitos vais-e-vens, foi definitivamente estabelecida sua hierarquia tendo Yohannan Hormizd como Patriarca Caldeu da Babilônia. Em 1846 essa igreja foi reconhecida pelo Império Otomano, o que lhe permitiu a emancipação civil dos católicos caldeus nesse Império.

Contexto histórico

         Em rápidas pinceladas: o Iraque, país bíblico, situa-se em sua maior parte na histórica Mesopotâmia, amplamente considerada como um dos berços da civilização. Segundo a Wikipedia:

“Foi ali que a humanidade começou a ler, escrever, criar leis e viver em cidades sob um governo organizado nomeadamente Uruque [cidade importante da Babilônia] a partir do qual o Iraque foi derivado. A área tem sido o lar de sucessivas civilizações contínuas desde o sexto milênio a.C. Em diferentes períodos da sua história, o Iraque era o centro dos impérios AcádioSumérioAssírio e Babilônico. O país também fez parte do Império Otomano e esteve sob controle britânico como um mandato da Sociedade das Nações”.

O Iraque moderno nasceu em 1919, quando o Império Otomano foi desmembrado depois da Primeira Guerra Mundial.

Em julho de 1979 Saddam Hussein se tornou ditador, durando seu governo até 2003, quando foi derrubado pelos americanos.

         Em 2014 o grupo terrorista Estado Islâmico capturou vastas áreas do norte e centro do país, culminando na proclamação de um “califado”. Seu regime foi um dos mais ferozes da História.

         Em dezembro de 2017, após anos de derramamento de sangue, as autoridades do Iraque declararam “vitória” na luta contra o Estado Islâmico, afirmando ter expulsado seus militantes do território do país. Entretanto, hoje, o grupo opera principalmente como uma rede insurgente e terrorista. 

         Por causa da constante guerra, muitos cristãos deixaram o Iraque. De modo que eles, que antes da invasão do Estado Islâmico em 2014 eram aproximadamente 300 mil, depois dela ficaram reduzidos a cerca de 150 mil.

A entrevista com a Irmã Narjis

BQ: As Filhas do Sagrado Coração de Jesus, Irmã Henti, nasceram nesta mesma terra, o Iraque. A Senhora pode descrever, em resumo, a história, as origens e a missão da congregação à qual pertence?

         Resumindo a resposta da Irmã Narjis a essa pergunta, dizemos que ela explica que sua congregação, a das Filhas do Sagrado Coração de Jesus, foi fundada no Iraque em 1911, originalmente para trabalhar em paróquias, servir o próximo e, especialmente, ajudando os doentes e os moribundos a bem morrer. Mas sobretudo se concentrando na educação dos jovens, pelo  que já fundaram várias no país.

BQ: A história do Iraque se nos apresenta, infelizmente, com várias páginas trágicas. Que imagens lhe vêm mais à mente?

Irmã Narjis: “Houve ataques do Estado Islâmico que podem ser considerados infernais; ataques durante os quais vivenciamos momentos terríveis: vítimas, sangue, dor e sofrimento. Lembro-me de uma noite em que nossas igrejas e nossas comunidades abriram as portas para os necessitados; em uma única noite, 5.000 famílias chegaram, despojadas de tudo. Sempre vivenciamos guerras, mas após a queda de Saddam Hussein, elas se tornaram cada vez mais severas. É terrível pensar que alguém pode matar com base em sua identidade!

BQ: As perseguições, as bombas, os ataques e os feridos: como viver tudo isso à luz da fé?

         “Como cristãos sempre tivemos a esperança de que, com Cristo, somos mais fortes. Em 2006, quando entrei para a comunidade, senti um forte chamado para servir a essas pessoas perseguidas. Escolhi ser um instrumento que Deus pudesse usar para dar conforto e esperança. Minha vocação não tem nada a ver com medo. Somos ainda mais fortes, mesmo quando somos perseguidos. Vem-me à mente São Paulo em sua segunda Carta aos Coríntios: ‘Quando sou fraco, então sou forte’ (12,10). É essa consciência que nos impulsiona em nossa missão, em nossa vocação. A Igreja Caldeia é conhecida ao longo da história como a ‘Igreja do martírio’: temos orgulho de quem somos! Em nossa liturgia das Vésperas, há hinos chamados ‘Hinos dos Mártires’. Nessas orações pedimos sua intercessão por toda a humanidade. Também temos em alta consideração todos os escritos dos Padres da Igreja que, juntamente com os mártires, representam verdadeiros faróis para nos guiar em nossa jornada em terras de perseguição. Com eles não temos medo!”

BQ: Como a população cristã no Iraque se prepara para o Natal?

“O Natal é uma celebração de alegria! E assim, com alegria, nos preparamos para aguardar o Menino Jesus. Nossas paróquias estão sempre cheias: as atividades com as crianças nos ajudam a aguardar o nascimento do Rei dos reis. O que vive em nós não é o pensamento de perseguição — que em nossos dias se torna cada vez mais uma discriminação contra os cristãos — mas um pensamento de extrema gratidão a Deus por nos ter dado Seu Filho! E respondemos a esse dom louvando o Senhor com alegria: basta pensar em nossa liturgia durante o Advento. São páginas escritas sobretudo pelos Padres da Igreja, que nos ajudam a nos preparar interiormente para o Santo Natal. Nosso breviário, em aramaico, durante este tempo tão importante, nos oferece a oportunidade de experimentar — com algumas orações — a beleza de nossa Igreja, especialmente a de nossas origens, que remontam ao primeiro século d.C.! Nossa alegria, certamente, vem da certeza da presença e proximidade do Menino Jesus, de Cristo, nas dificuldades diárias que encontramos. Respondemos a essas dificuldades com as mesmas palavras que o anjo Gabriel, no momento de sua apresentação à Virgem, pronunciou: ‘Não tenha medo!’. Aproveito sinceramente esta oportunidade para desejar a todos, verdadeiramente a todos, um Santo Natal, vivido com plena esperança, com o coração pronto para acolher o Rei da Paz”.