
- John Horvat
Enquanto a Ucrânia sofre ataques recordes com drones contra residências e infraestrutura energética, seu governo enfrenta um ataque muito mais letal do que qualquer outro realizado com armamento cinético.
A ameaça vem na forma de uma proposta de paz americana para pôr fim à guerra. O que é alarmante nessa proposta é que ela não leva em consideração o certo e o errado da sangrenta invasão.
Ela propõe entregar a guerra aos negociadores, que decidirão o destino da Ucrânia. O que a Rússia não conseguiu obter no campo de batalha, poderá encontrar nos bastidores, onde acordos sujos e desonrosos são tramados.
Os negociadores não consideram as pessoas envolvidas nem a justiça de suas reivindicações. Consideram as vantagens materiais que podem obter. O sofrimento das vítimas da guerra não significa nada para os negociadores. Tudo é um jogo onde cada pessoa ganha algo com base nas cartas que possui.
A regra do dinheiro
No caso da Ucrânia, a ideia é ganhar dinheiro, não fazer guerra. Os negociadores prosperam onde o dinheiro manda. Dentro desse mundo obscuro, o dinheiro se transforma de um meio comum de troca na principal medida de todos os relacionamentos e valores. Tudo é reduzido a termos de uma transação comercial ou quantia em dólares.
É uma situação em que o elemento humano, tão essencial para o bom funcionamento da sociedade e da economia, é reduzido a quase invisibilidade. O acordo é frio e impessoal. Tudo é negociável.
A força faz o direito
Quando o dinheiro manda, surge uma narrativa em que a força faz o direito e aqueles com mais recursos são considerados os vencedores. Justiça e injustiça são ignoradas.
Assim, a Ucrânia entra nesse cenário de bastidores em significativa desvantagem em termos de efetivos e recursos. Contudo, apesar de sua inferioridade em força, o bravo povo ucraniano conseguiu conter os russos (e seus mercenários norte-coreanos, cubanos e africanos) por quatro anos.
Tal coragem em campo de batalha não impressiona os negociadores, que partem do princípio de que, como a Rússia detém a vantagem material, é insensato opor-se a tais probabilidades. O melhor a fazer é fechar um acordo e torcer para que tudo dê certo.
Dinheiro acima de tudo
É isso que torna tudo tão cínico. Ao fechar um acordo, não há culpados. Não há necessidade de ver quem quebrou as regras ou quem pagará as indenizações. Dinheiro acima de tudo.
Assim, os negociadores se apressam nos bastidores para garantir a melhor posição. O Wall Street Journal relata que a Exxon Mobil, por exemplo, já está sondando a possibilidade de trabalhar com a maior empresa estatal de energia da Rússia, a Rosneft, para desenvolver o gigantesco projeto de gás Sakhalin-1. Diz-se que um empresário americano está considerando comprar o gasoduto Nord Stream 2, danificado após a guerra.
De fato, empresas americanas e russas estariam em negociações para trabalharem juntas na reconstrução das áreas da Ucrânia destruídas pela Rússia.
Os novos acordos colocarão as empresas americanas em primeiro lugar, à frente de suas contrapartes europeias, em todos esses negócios sujos, enquanto a Rússia se reintegra ao Ocidente após sua injusta guerra de agressão.
Um acordo unilateral
A proposta surge em um momento em que a Ucrânia resiste tenazmente em sua fronteira leste. A Rússia está perdendo um número enorme de tropas usando táticas insustentáveis de desgaste. É bem provável que o acordo seja apenas uma tábua de salvação para Putin em sua hora de desespero.
No entanto, a Ucrânia agora está sob pressão para ceder, já que os Estados Unidos e a Europa perderam a coragem e não defenderão a soberania desta ex-república soviética que em 1º de dezembro de 1991 votou por uma esmagadora maioria de 92% em um referendo para abandonar seu domínio comunista.
O colunista do New York Times, Thomas Friedman, afirma que o novo acordo americano é vergonhosamente unilateral. As exigências dos russos praticamente não mudaram desde a invasão. Eles ainda sustentam que a Ucrânia não tem o direito de existir como uma nação independente e, portanto, deve se submeter a condições que a tornarão, na melhor das hipóteses, um estado vassalo da Rússia.
O acordo sujo é um acordo fechado
Embora o Sr. Friedman reconheça a injustiça dessa afirmação, ele também acredita que um acordo precisa ser alcançado. E nem sequer afirma que precisa ser um acordo justo. Em vez disso, admite que será um acordo sujo, o melhor que se pode esperar, dada a trágica falta de vontade ocidental de se opor à Rússia.
No entanto, ele diz que qualquer coisa é melhor do que as propostas atuais, que ele chama de um acordo sujo que entrega tudo.
Quando a escolha é entre um acordo sujo e um acordo imundo, algo está seriamente errado. Isso significa falta de honra e abandono de princípios. O poder do dinheiro triunfou.
Isso nos leva à conclusão de que esta proposta é, acima de tudo, um fato consumado. É algo decidido nos bastidores, de antemão, contra o qual o povo não tem como recorrer. A Ucrânia deve rejeitá-la e continuar lutando, mesmo abandonada por todos, depositando sua confiança em Deus e em sua Santíssima Mãe. Nenhuma nação é obrigada a trilhar o próprio caminho para o suicídio.