Heroísmo de três capelães militares

Heróis na Terra, Santos no Céu, americanos a caminho da santidade

  • Plinio Maria Solimeo

O heroísmo atrai, mais comumente quando praticado no campo militar. De onde o empolgante relato sobre a ação de três capelães militares americanos cujo alto grau de desprendimento e coragem no exercício do sacerdócio os levou a dar suas vidas pelas dos soldados a eles confiados.

2nd Lt. Emil Kapaun, U.S. Army chaplain, em 1943. (U.S. Army photo)

O primeiro de que nos ocupamos é o padre Emílio Kapaun, nascido no Kansas em 1916, ordenado sacerdote em 1940 e capelão militar na II Guerra Mundial. Nessa qualidade ele serviu na Índia e em Burma, antes de ser enviado à Coréia para atender espiritualmente os soldados americanos que lá batalhavam.

Em novembro de 1950, durante a sangrenta Batalha de Unsan, ele teve de se desdobrar infatigavelmente para atender feridos no campo de batalha, livrando muitos deles de serem capturados pelos chineses. Quando suas tropas começaram a recuar, ele quis ficar atrás para socorrer os feridos e os que ainda lutavam. Estando rodeados de inimigos e sem nenhuma chance de resistência, o padre Kapaun — por meio de um soldado americano de origem chinesa — negociou a rendição de suas tropas ao inimigo. Ele e seus companheiros de infortúnio foram mandados para um campo de prisioneiros cujas condições eram absolutamente brutais: maus tratos, má nutrição, enfermidades e frio extremo.

O padre Kapaun os atendia, tanto do ponto de vista material quanto espiritual, especialmente os feridos. Partilhava sua parca ração com os mais necessitados, procurava obter que seus algozes os provessem de alimento extra e água fresca, dava-lhes parte de suas roupas para aquecê-los no gélido frio e lavava seus farrapos. Organizou grupos de oração para levantar o moral de todos e alentar a esperança dos mais provados. Devido à grande mortandade causada por moléstias e maus tratos, o Pe. Kapaun despendia muito de seu tempo atendendo os agonizantes e ministrando-lhes os últimos sacramentos. Os soldados sobreviventes atestaram depois que a fé desse sacerdote e sua constante caridade para com todos obtiveram para centenas deles a conservação do equilíbrio psíquico e moral em meio àquele verdadeiro inferno. Por isso, o sacerdote se tornou uma legenda entre seus companheiros de cativeiro.

Vítima de sua caridade e dedicação, o capelão também acabou sendo atacado pela moléstia. Transportado para o hospital do campo de prisioneiros, ali faleceu no dia 23 de maio de 1951. Seus restos mortais só foram identificados em 2021, entre os dos soldados desconhecidos da Guerra da Coréia sepultados num cemitério do Havaí. Foram então removidos e enterrados na catedral de Wichita, no Estado de Kansas

Graças a seus ex-companheiros de prisão, os feitos desse heroico soldado-sacerdote foram amplamente narrados e conhecidos nos Estados Unidos. Desse modo, em 2013 o Presidente em exercício lhe concedeu a Medalha de Honra, o maior tributo militar por valor, acima e além da chamada do dever. O Papa João Paulo II declarou-o Servo de Deus em 1993 e a Congregação para as Causas dos Santos do Vaticano está investigando sua vida para um possível avanço rumo à canonização.

Padre Joseph Verbis Lafleur

Padre Joseph Verbis Lafleur (1941)

O padre Lafleur nasceu em Ville Platte, Louisiana, em janeiro de 1912. Sentindo-se desde cedo chamado ao sacerdócio, aos 14 anos entrou no seminário menor de São José, em São Benedito, no seu estado natal, onde passou seis anos. Foi depois para o seminário maior Notre Dame, em Nova Orleans, onde se preparou para o sacerdócio. Ordenado em 1938, enviaram-no como coadjutor na igreja de Santa Maria Madalena, em Abbeville, onde ingressou nos Cavaleiros de Colombo. Pouco antes da II Guerra Mundial pediu aos superiores para se engajar como capelão na Força Aérea, o que ocorreu em 1941, poucos meses antes de os Estados Unidos se envolverem na guerra.

Designado para o 19º Grupo de Bombardeio, o sacerdote estacionou em Clark Field, cerca de 60 milhas de Manila, nas Filipinas. Em 8 de dezembro de 1941, um dia após o ataque a Pearl Harbor, os japoneses invadiram o país, tendo a unidade militar do Pe. Lafleur sido derrotada e aprisionada num campo de prisioneiros de guerra. O capelão teve chance de escapar, mas escolheu permanecer no campo para atender ao bem espiritual dos homens confiados aos seus cuidados.

Foi nesse contexto que ele exerceu inúmeros atos de abnegação, caridade e generosidade. Como fizera o padre Kapaun, dava sua própria parca ração aos que estavam morrendo de fome e os auxiliava em todas as suas necessidades. Numa troca de prisioneiros, ele poderia novamente ser “libertado, porém trocou de lugar com outro prisioneiro para continuar seu ministério sacerdotal junto a alguns soldados condenados a um extenuante trabalho forçado na manutenção de uma pista de pouso japonesa”.

Ocorreu então que, em 7 de setembro de 1944, temendo os japoneses a libertação dos prisioneiros pelas forças americanas que avançavam, decidiram mandá-los para o Japão, entre eles o Pe. Lafleur.

Quando estavam sendo transportados pelo navio Shinyo Maru [foto], este foi bombardeado por um submarino americano, que ignorava o fato de o mesmo estar transportando prisioneiros de guerra americanos. Incendiado, o navio começou a afundar. Enquanto todos procuravam fugir a nado, o sacerdote se recusou a fazê-lo, a fim de ajudar os feridos a escapar da embarcação, atacada também pelos guardas japoneses para impedir a fuga dos prisioneiros.

Aqueles que conseguiram chegar à costa se recordam dos esforços heroicos do padre Lafleur, que em vez de buscar a própria segurança, permanecia no navio para salvar a vida de seus companheiros. Ele foi visto pela última vez com água até a cintura ajudando alguns a sair do casco para o convés. Afundou com o navio e seu corpo nunca foi encontrado. Seus companheiros de cativeiro que conseguiram escapar testemunharam que a personalidade e a virtude do capelão motivaram a conversão de cerca de 200 prisioneiros no campo.

O padre Lafleur recebeu várias condecorações póstumas: Coração Púrpura — outorgada em nome do Presidente a todos os integrantes das Forças Armadas feridos ou mortos durante o serviço militar; Estrela de Bronze — outorgada pelas Forças Armadas dos Estados Unidos por bravura, atos de mérito por dedicação heroica. Quando outorgada por bravura, esta medalha é a quarta mais importante na ordem de precedência das condecorações militares norte-americanas. Recebeu ainda uma segunda Cruz de serviço distinguido por suas ações como prisioneiro de guerra. Depois da Medalha de Honra, é a segunda máxima condecoração do Exército americano, dada por ações de extraordinário heroísmo contra o inimigo. A ação deve ser notável, representar um risco contra a própria vida e ser realizada individualmente, o que ocorreu com o padre Lafleur.

Em 5 de setembro de 2020, Dom J. Douglas Deshotel, bispo diocesano de Lafayette, na Louisiana, abriu oficialmente a causa de beatificação do padre Lafleur.

Padre Vicente Roberto Capodanno

Vicente R. Capodanno Jr. [foto] nasceu em Staten Island, Nova York, em 13 de fevereiro de 1929, último dos dez filhos de um imigrante italiano. Em 1949 ingressou no seminário missionário Maryknoll em Ossining, Nova York, onde em 14 de junho de 1958 recebeu a ordenação sacerdotal das mãos do cardeal Francis Spellman. Como missionário esteve em Taiwan e Hong Kong, de 1958 a 1965. Ingressou depois na marinha como capelão militar, sendo mandado para o Vietnã na Semana Santa de 1966. Participou como tenente de sete operações de combate, atendendo espiritual e materialmente a todos, de modo especial os feridos e moribundos, levando-lhes ajuda médica e ministrando-lhes os sacramentos da Igreja.

No dia 4 de setembro de 1967, durante uma operação no vale Que Son, algumas dezenas de Fuzileiros Navais foram cercados por uma grande unidade do exército do Vietnã do Norte composta por cerca de 2.500 homens. No enfrentamento, em menor número e desorganizados, os americanos lutaram desesperadamente, mas tiveram 26 baixas.

Quando o padre Capodanno soube que homens de seu batalhão estavam morrendo e prestes a serem aniquilados pelo inimigo, foi desarmado para o campo de batalha a fim de atender os feridos e moribundos, confortá-los e ministrar-lhes os últimos Sacramentos. Atingido por uma explosão de morteiro, recebeu múltiplas feridas nos braços e nas pernas, e perdeu parte da mão direita. Recusou, porém, toda assistência médica, para que os medicamentos fossem usados em outros fuzileiros navais feridos.

Apesar de ferido, no início daquela noite, enquanto ele ajudava dois fuzileiros atingidos gravemente, viu aproximar-se um vietnamita comunista que lhes apontou a metralhadora. O padre Capodanno cobriu então com seu corpo o soldado que atendia, recebendo sobre si uma saraivada de 27 tiros que lhe granjearam o martírio.

O corpo desse mártir da caridade foi recuperado e enterrado no terreno de sua família no Cemitério de São Pedro, em Staten Island.

O valente capelão militar recebeu postumamente a mais alta condecoração militar dos Estados Unidos, a Medalha de Honra. Recebeu também a National Defense Service Medal [foto] por serviço distinguido, a Estrela de Bronze da Marinha, a Cruz vietnamita de valor e a condecoração Coração Púrpura.

Desde sua morte houve vários relatos de favores obtidos por sua intercessão, sobretudo de pessoas que recorreram a ele após delicadas operações cirúrgicas. Em 2005 a Igreja Católica declarou o padre Capodanno “Servo de Deus”, iniciando assim formalmente o processo pelo qual a Congregação do Vaticano para as Causas dos Santos considera os candidatos à santidade. A causa de beatificação é a próxima etapa do processo.

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Fontes:

https://www.aciprensa.com/noticias/4-patriotas-de-estados-unidos-en-camino-a-los-altares-65870?utm_campaign=ACI%20Prensa%20Daily&utm_medium=email&_hsmi=138327286&_hsenc=p2ANqtz-9XDegRNCS3NA07apInCiLd95C0rYsEDgm2gL35Om7iKt6n5x3FGGoQdkYCNbwhCNDMUX9N7BWgCfxezZKXwVfS3WK0zg&utm_content=138327286&utm_source=hs_email

https://www.usccb.org/news/2021/us-bishops-conduct-canonical-consultation-cause-beatification-and-canonization-servant-0

https://pt.findagrave.com/memorial/182683051/joseph-verbis-lafleur

https://en.wikipedia.org/wiki/Vincent_R._Capodannohttps://www.catholicnewsagency.com/news/248227/four-patriotic-americans-on-their-way-to-sainthood