
A eleição de Zohran Mamdani como prefeito de Nova York é um evento de importância internacional, que merece algumas considerações.
A eleição de um candidato de extrema-esquerda na cidade americana mais influente confirma, antes de tudo, a existência de uma forte polarização dentro dos Estados Unidos. O assassinato de Charlie Kirk, em 10 de setembro passado, já havia destacado isso. Tyler Robinson, assassino do jovem líder conservador, representa na verdade uma expressão radical daquele mundo americano ultraprogressista que odeia visceralmente a ordem social tradicional e está pronto para usar a violência para destruí-la. Donald Trump, que também escapou de uma tentativa de assassinato em 13 de julho do ano passado, é considerado o inimigo por excelência deste mundo.
Nova York, embora não represente a América profunda, é uma vitrine da América no mundo e a pessoa que a lidera hoje é um social-comunista, um inimigo declarado do presidente dos Estados Unidos. Mamdani apresentou sua vitória como um desafio direto a Donald Trump, insistindo que sua batalha política não termina dentro dos limites municipais. “Nova York será a vanguarda da resistência“, disse ele em seu discurso como novo prefeito de Nova York no Brooklyn Paramount, logo após sua vitória eleitoral.
Nova York enfrenta problemas sérios, como aumento da criminalidade, crise habitacional, infraestrutura precária, educação de baixa qualidade e decadência urbana. As receitas propostas por Mamdani, “mais ativista do que administrador“, como aponta o New York Post de 24 de outubro, são utópicas e correm o risco de agravá-las. Suas prioridades parecem ser a mobilização ideológica, e não a gestão pragmática. Nova York torna-se assim a plataforma de uma batalha planetária. Não é coincidência que, em uma entrevista em 16 de junho de 2025, Mamdani tenha usado a expressão “Globalize a Intifada” para indicar o horizonte global de uma luta que tem suas raízes no teatro do Oriente Médio.
Mamdani é o primeiro prefeito muçulmano de Nova York, de origem sul-asiática, nascido na África e cidadão americano há alguns anos, mas seu pai Mahmood Mamdani é professor de antropologia na Universidade Columbia e sua mãe, Mira Nair, é uma famosa diretora de cinema. Na biografia, e no programa de Mamdani, duas identidades aparentemente antitéticas convergem: por um lado, a cultura woke – filha de universidades americanas progressistas – por outro, o pró-islamismo cada vez mais difundido, como na Europa, entre imigrantes muçulmanos de segunda e terceira geração. Desses dois mundos, um celebra o relativismo e a fluidez identitária, o outro se refere à lei Shari’a.
O paradigma woke interpreta o Ocidente como uma estrutura de poder a ser metodicamente desconstruída. Nela, ele vê a origem de toda “opressão”: colonialismo, patriarcado, capitalismo, heteronormatividade. O objetivo final não é reformar, mas dissolver identidades, fronteiras, tradições.
O islamismo político interpreta o Ocidente de forma oposta, mas especular: não como uma construção cultural injusta, mas como uma civilização em declínio, marcada pela corrupção dos costumes, secularização forçada e uma expansão geopolítica percebida como agressiva ou hostil ao mundo muçulmano.
O léxico político de Mamdani, assim, se baseia no reservatório retórico dos movimentos islamistas e ultraesquerdistas, que dividem o mundo em opressores e oprimidos e consideram o Ocidente um bloco moralmente deslegitimado. Como o New York Post intitulou: “Não é islamofobia notar que Mamdani odeia o Ocidente.” O artigo não julga suas ideias: ele destaca sua hostilidade em relação aos pilares da cultura ocidental.
A convergência entre islamismo radical e ativismo woke não se baseia em um projeto, mas em uma coalizão essencialmente negativa, caracterizada mais pela rejeição do que por uma proposta construtiva. Nesse sentido, a estratégia que combina elementos da ideologia islamista com práticas típicas dos movimentos ultraesquerdistas pode ser definida como “anarco-islamismo”.
A ideia básica não é criar redes internacionais com instituições e a sociedade, mas apoiar experiências de protesto radical e oposição permanentee, para criar um clima de conflito social e cultural, especialmente nas grandes cidades, fazer com que a sociedade ocidental seja percebida como em “crise”. O espaço urbano, onde as tensões surgem com mais facilidade, torna-se o teatro privilegiado da ação: manifestações que frequentemente resultam em violência, ocupações, contra-narrativas nas redes sociais. É a lógica revolucionária: quando a Verdade deixa de ser o princípio ordenador da referência, o vazio é preenchido por seus negadores, mesmo que de forma caótica e fragmentada.
Nova York representa há décadas a tribuna da cultura democrática liberal mundial. Foi a cidade onde as Nações Unidas estabeleceram sua sede, onde as formas mais avançadas de pluralismo cultural foram experimentadas, onde a liberdade individual – econômica, política, artística – foi elevada a um paradigma universal. A cidade incorporava o que Francis Fukuyama, em 1992, chamou de “o fim da história“: o triunfo da democracia liberal como modelo definitivo de organização política mundial. Este projeto falhou e devemos prestar atenção a ele.
A eleição de Zohran Mamdani não é apenas uma mudança de administração, mas atesta a autodissolução de uma cultura liberal, que não só se mostrou incapaz de enfrentar os inimigos do Ocidente, mas que abre caminho para eles.
O Ocidente não pode mais se identificar com a civilização moderna, filha da Revolução Francesa, mas sim com a civilização cristã, que tem raízes na Idade Média e na cultura greco-romana. Lutamos para defender essa civilização e Zohran Mamdani, que quer destruí-la, é nosso inimigo cultural.