
A devoção ao Sagrado Coração de Jesus
ocupa um lugar central na espiritualida
de católica há mais de três séculos.
Pergunta — Participei recentemente de uma reunião de um curso ‘Crescendo na Fé’, organizada por um grupo leigo que eu não conhecia. Durante as discussões, tratou-se da devoção popular ao Sagrado Coração de Jesus, e fiquei bastante chocado ao perceber que o sacerdote palestrante e a maioria dos participantes apresentavam uma visão muito negativa dessa devoção. Alguns chegaram a afirmar que se tratava de uma prática pouco espiritual, que conduz a uma espécie de materialismo; outros disseram que seu objeto não era claro: se se tratava do órgão físico ou do amor entendido de forma simbólica. Houve quem alegasse que essa conexão entre o coração e o amor estaria superada pela ciência, que já não considera o coração como sede das emoções. Por fim, o próprio padre declarou que seria teologicamente errado prestar culto a uma parte do corpo, em vez de adorar a pessoa inteira de Cristo. Ainda foi feita uma crítica de que essa devoção dá ênfase excessiva aos sentimentos, colocando um foco desproporcional — até mórbido — no sofrimento e na reparação. Confesso que ainda estou perplexo com tudo que ouvi e gostaria de receber uma explicação que me ajudasse a preservar minha devoção ao Sagrado Coração Jesus.
Pe. David Francisquini
Resposta — Agradeço a sinceridade do leitor e aproveito a ocasião para fazer uma recomendação importante: é sempre prudente informar-se bem antes de aceitar convites para participar de encontros de “formação” religiosa. Nem sempre tais ambientes são seguros do ponto de vista doutrinário; ao contrário, podem introduzir, de modo sutil, dúvidas sobre práticas tradicionais de piedade ou até mesmo sobre verdades fundamentais da fé.
Foi infelizmente o que parece ter ocorrido nessa reunião — que talvez fosse mais adequado chamar de “demolição” — da qual o leitor participou. Embora a devoção ao Sagrado Coração de Jesus ocupe um lugar central na espiritualidade católica há mais de três séculos, ela continua sendo alvo de críticas, tanto por parte de intelectuais racionalistas quanto de correntes progressistas dentro da própria Igreja. O relato apresentado reúne, em forma condensada, essas objeções, que giram sobretudo em torno de três pontos: a suposta indefinição do objeto da devoção, seu fundamento teológico e a legitimidade de suas expressões simbólicas e práticas.
No espaço limitado desta resposta, procurarei oferecer uma explicação de conjunto para as dificuldades mencionadas, mostrando a legitimidade espiritual da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, seu equilíbrio teológico e a coerência entre seus fundamentos doutrinários e suas práticas de piedade.
Aspecto simbólico do coração
Primeiramente, é essencial compreender que a devoção ao Sagrado Coração não é algo separado de Jesus, mas uma forma particular de devoção à própria pessoa do Redentor. É verdade que a palavra “coração” evoca, antes de tudo, o órgão físico que pulsa em nosso peito. No entanto, esse coração de carne é universalmente reconhecido como símbolo das emoções e da vida moral. Por isso, ocupa lugar central na linguagem simbólica, como nas expressões “abrir o coração” ou “dar o coração”. Além disso, no uso comum da linguagem, frequentemente se toma a parte pelo todo, utilizando-se um elemento do corpo para designar a própria pessoa. Por exemplo, quando dizemos “precisamos de grandes cabeças”, referindo-nos aos cientistas, ou “a força de seus braços desbravaram o Brasil”, em relação aos bandeirantes.
Essa consideração permite compreender que, embora o objeto imediato da devoção seja o Coração de carne de Jesus — enquanto símbolo visível —, a devoção não se limita ao aspecto físico, mas se dirige principalmente ao amor que esse Coração representa. Há, portanto, dois elementos inseparáveis: um sensível, o Coração de carne; e um espiritual, o amor que ele simboliza. Esses dois elementos não constituem objetos distintos, mas formam uma única realidade, assim como corpo e alma constituem o ser humano.
Entre esses dois elementos, o principal é o amor, que é ao mesmo tempo a razão de ser da devoção e sua causa. Assim, pode-se definir a devoção ao Sagrado Coração como a devoção ao adorável Coração de Jesus enquanto símbolo de seu amor; ou, inversamente, como a devoção ao amor de Cristo enquanto nos é tornado presente e sensível por meio de seu Coração.
A devoção fundamenta-se, portanto, no simbolismo do coração, enriquecido pela imagem do Coração ferido, que recorda a dor invisível do amor de Cristo não correspondido pelos homens. Por essa razão, nas representações do Sagrado Coração não se busca precisão anatômica, pois isso obscureceria o sentido simbólico. O importante é que o coração representado seja reconhecível como símbolo, e não como simples reprodução biológica.
A devoção leva a aprofundar a Pessoa de Jesus Cristo

Sendo o coração símbolo do amor, é natural que a devoção nos conduza ao centro da vida de Cristo. Afinal, não foi o amor a causa de tudo o que Ele fez e sofreu? Não foi esse amor que orientou toda a sua vida interior? Ao dirigir-se ao Coração de Jesus, o fiel é levado a contemplar suas virtudes, seus sentimentos e a essência de sua vida, chegando a um conhecimento mais profundo de sua Pessoa. Assim, falar do Sagrado Coração é falar do próprio Cristo enquanto manifestação de seu amor, que se apresenta de modo particularmente intenso nos mistérios da Encarnação, da Paixão e da Eucaristia.
Ao contemplar esse amor, o fiel percebe também que ele é frequentemente rejeitado pelos homens. Essa queixa é constantemente expressa nas Sagradas Escrituras e confirmada por aparições a numerosos santos. Um aspecto essencial da devoção consiste justamente em considerar esse amor desprezado. O próprio Cristo o revelou a Santa Margarida Maria Alacoque (1647–1690), especialmente ao manifestar seu desejo de reparação.
Nenhuma prática de piedade pode esgotar a riqueza dessa devoção, pois o amor — que é sua essência — abarca tudo. Contudo, como ela se baseia na reciprocidade do amor (amar a Cristo que tanto nos amou) e reconhece que esse amor é muitas vezes desprezado, assume naturalmente um caráter de reparação. Daí a importância de práticas como a Comunhão reparadora das Primeiras Sextas-feiras do mês e outros atos de expiação.
Diante disso, compreende-se que a Igreja, ao aprovar a devoção ao Sagrado Coração, não se baseou apenas nas visões de Santa Margarida Maria, mas examinou o culto em si mesmo. Se por hipótese tais visões fossem questionáveis, a devoção continuaria sólida em seus fundamentos. Ainda assim, a Igreja analisou cuidadosamente essas revelações antes de favorecer sua difusão, reconhecendo nelas uma base mais do que suficiente para sua propagação.
Quanto à objeção de que seria errado prestar culto a uma parte do corpo, basta recordar que tudo o que pertence à Pessoa de Cristo é digno de adoração. O erro estaria em considerar o Coração isoladamente, sem relação com a Pessoa divina — o que não ocorre na verdadeira devoção. Já no século XVIII, o Papa Pio VI, na bula Auctorem fidei, defendeu essa prática contra críticas semelhantes levantadas pelos jansenistas. Como já foi assinalado, a adoração dirigida ao órgão físico do Coração estende-se, na realidade, ao amor que ele simboliza e, por meio dele, à própria Pessoa de Cristo.
Multissecular aprovação da Igreja
É particularmente lamentável que, nas críticas mencionadas pelo nosso missivista, se desconsidere com tanta leviandade o fato de que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus não é uma invenção recente, mas uma realidade multissecular na vida da Igreja. Desde os tempos apostólicos, já se encontra, ainda que de forma implícita, uma profunda devoção ao amor de Deus: ao amor do Pai, que nos deu o seu Filho unigênito, e ao amor do Verbo, que nos amou a ponto de se encarnar e se entregar por nós.
Entre os Padres da Igreja, não se encontra ainda a forma explícita dessa devoção tal como a conhecemos hoje, mas já se meditava intensamente sobre o lado aberto de Cristo, sobre o mistério do sangue e da água que dele jorraram na crucifixão, e sobre a Igreja nascida desse lado aberto, assim como Eva foi formada do lado de Adão. Já nos séculos XI e XII, contudo, aparecem os primeiros indícios inequívocos da devoção ao Sagrado Coração, especialmente na contemplação da ferida do Coração de Cristo como símbolo da ferida de seu amor.
Dessa época data a obra Vitis Mystica, que contém uma das mais belas passagens que inspiraram essa devoção, a ponto de ter sido incorporada pela Igreja nas lições do segundo noturno da festa do Sagrado Coração. Também Santa Gertrudes (1256–1302) recebeu graças especiais relacionadas a esse mistério: na festa de São João Evangelista, foi-lhe permitido repousar a cabeça junto à ferida do costado do Salvador, ouvindo as pulsações do Coração divino. Perguntando a São João se ele também havia experimentado tal graça na Última Ceia e por que nada dissera a respeito, recebeu como resposta que essa revelação estava reservada para tempos futuros, quando o mundo, tornando-se mais frio, necessitaria dela para reacender o amor.
Do século XIII ao XVI, a devoção ao Sagrado Coração permaneceu sobretudo no âmbito da vida mística e pessoal, sendo cultivada por almas privilegiadas. Os registros de diversas ordens religiosas — como franciscanos, dominicanos e cartuxos — conservam numerosos testemunhos dessa prática. Tratava-se, porém, de uma devoção essencialmente privada e interior. Já no século XVI, ela começa a dar um passo adiante, passando do âmbito estritamente individual para formas mais comunitárias, com a elaboração de orações e exercícios específicos, cuja prática era recomendada e valorizada. No século XVII, entre os que a cultivaram com fervor, encontram-se figuras como São Francisco de Borja, São Pedro Canísio, São Luís Gonzaga e Santo Afonso Rodríguez, todos da Companhia de Jesus.
Foi, entretanto, São João Eudes (1602–1680) quem teve o mérito de dar à devoção um caráter público e litúrgico, compondo um Ofício próprio e instituindo uma festa em sua honra. Embora tenha sido sobretudo o grande apóstolo do Sagrado Coração de Maria, sua espiritualidade incluía também o culto ao Coração de Jesus, que gradualmente se afirmou como devoção distinta. Assim, em 31 de agosto de 1670, celebrou-se com grande solenidade a primeira festa do Sagrado Coração no Seminário Maior de Rennes, dirigido pelos eudistas. Pouco depois, o seminário de Coutances seguiu o exemplo, e a devoção começou a se difundir por diversas comunidades religiosas e dioceses.

As aparições a Santa Margarida Maria Alacoque
Ao mesmo tempo, a Ordem da Visitação preparava-se, por assim dizer, para acolher a missão providencial de Santa Margarida Maria. Diversas figuras espirituais haviam contribuído para isso: as intuições de São Francisco de Sales, as meditações de Madre l’Huillier (†1655), bem como as experiências místicas de Madre Anne-Marguerite Clément (†1661) e da Irmã Jeanne-Bénigne Gojos (†1692). A imagem do Coração de Jesus já estava amplamente difundida, em grande parte graças à devoção franciscana às Cinco Chagas e ao costume dos jesuítas de expor essa imagem em seus livros e igrejas.
Foi, porém, Margarida Maria Alacoque, humilde religiosa da Visitação em Paray-le-Monial, quem recebeu de Cristo a missão de dar novo impulso e difusão universal a essa devoção. Tudo indica que ela não possuía um conhecimento prévio relevante sobre o tema antes das revelações. Estas foram numerosas, sendo algumas particularmente marcantes. Na festa de São João Evangelista (27 de dezembro de 1673), Jesus permitiu-lhe repousar a cabeça sobre o seu Coração, revelando-lhe as maravilhas de seu amor e manifestando o desejo de torná-las conhecidas a todos. Em outra ocasião, pediu que fosse honrado sob a imagem de seu Coração de carne. Posteriormente, apareceu-lhe radiante de amor e solicitou práticas de reparação, como a comunhão frequente, a comunhão nas primeiras sextas-feiras e a Hora Santa.
Destaca-se ainda a chamada “grande aparição”, ocorrida durante a oitava de Corpus Christi de 1675, quando Cristo declarou:“Eis aqui o Coração que tanto amou os homens, que não poupou nada até se esgotar e se consumir, para lhes testemunhar seu amor; e, por reconhecimento, não recebe da maior parte deles senão ingratidões”, pedindo a instituição de uma festa de reparação na sexta-feira após a oitava. Também solicitou que fosse prestada uma homenagem solene por parte do rei Luís XIV e confiou às religiosas da Visitação e aos jesuítas a missão de propagar a devoção.
A propagação da devoção ao Sagrado Coração

Quatro anos antes da morte da santa, sua comunidade começou a celebrar a festa do Sagrado Coração de forma privada. Em pouco tempo, a prática se difundiu por outros conventos visitandinos e, progressivamente, por paróquias e dioceses. Setenta e cinco anos após sua morte, a festa foi aprovada para um país inteiro — a Polônia, em 1765 — e, em 1856, o Papa Pio IX a estendeu a toda a Igreja. Em 1889 foi elevada ao rito de dupla primeira classe.
Paralelamente, difundiram-se os atos de consagração e reparação. A partir de 1850, numerosas associações e congregações passaram a se consagrar ao Sagrado Coração. Em 25 de março de 1874, o Equador tornou-se o primeiro país a realizar uma consagração oficial nacional, por iniciativa do presidente Gabriel García Moreno. Finalmente, em 11 de junho de 1899, por determinação do Papa Leão XIII, toda a humanidade foi solenemente consagrada ao Sagrado Coração.
Essa consagração — que Leão XIII chamou de “o grande ato” de seu pontificado — foi inspirada por uma religiosa do Bom Pastor, da cidade do Porto, conhecida como Irmã Maria do Divino Coração, pertencente à nobre família alemã dos Drost-zu-Vischering. Ela afirmou ter recebido tal pedido do próprio Cristo. De modo providencial, faleceu no dia da festa do Sagrado Coração daquele ano, dois dias antes da realização da consagração, que havia sido adiada para o domingo seguinte.
No início do século XX, o Pe. Mateo Crawley-Boevey, sacerdote peruano da Congregação dos Sagrados Corações, foi enviado a Paray-le-Monial, na França, em busca de recuperação para sua saúde fragilizada. Profundamente devoto do Sagrado Coração, ao rezar no santuário das aparições, em 24 de agosto de 1907, recebeu uma graça decisiva: sentiu-se curado e, ao mesmo tempo, compreendeu claramente sua missão. Inspirado pelas revelações a Santa Margarida Maria e também pela constatação de que o laicismo estava afastando Deus da vida social, decidiu promover a entronização do Sagrado Coração nos lares, nas escolas e nos ambientes de trabalho, com o objetivo de restaurar a vida cristã das famílias e da sociedade, reconhecendo Cristo como Rei.
Na mesma ocasião, delineou o plano e o cerimonial dessa obra, que rapidamente se transformou em uma verdadeira cruzada espiritual. Após iniciar seu apostolado na Terra Santa com o apoio do Papa São Pio X, difundiu a prática no Chile a partir de 1908, alcançando grande sucesso e expandindo-a por toda a América do Sul. Posteriormente, levou essa missão à Europa, especialmente durante a Primeira Guerra Mundial, promovendo uma notável renovação espiritual em diversos países e contribuindo para a consagração de nações inteiras ao Sagrado Coração de Jesus.

“Fonte inesgotável de misericórdia”
Infelizmente, a partir da década de 1930, começou a difundir-se em certos ambientes eclesiais uma nova “sensibilidade” teológica e pastoral, promovida no seio da Ação Católica e do chamado Movimento Litúrgico. Essa orientação procurava “recentrar” a vida cristã na liturgia e nos sacramentos, muitas vezes em detrimento das devoções populares, que passaram a ser vistas como excessivamente sentimentais ou pouco fundamentadas na Sagrada Escritura. As críticas relatadas pelo nosso missivista são, em grande parte, um eco das objeções que já se faziam, em meados do século passado, ao Apostolado da Oração e à devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Esse processo se intensificou após as reformas do Concílio Vaticano II, levando, em diversos lugares, ao abandono de práticas tradicionais como a entronização do Sagrado Coração nos lares ou a Guarda de Honra diante do Santíssimo Sacramento.
Apesar disso, a devoção ao Sagrado Coração jamais desapareceu. Continuou viva em muitos ambientes e, nas últimas décadas, vem conhecendo um renovado interesse em diferentes contextos do mundo católico. Um sinal disso é o documentário Seu Reino não terá fim – O Sagrado Coração, lançado na França em outubro do ano passado pelo casal Steven Gunnel e Sabrina Gunnel, ela brasileira. Trata-se de uma obra de caráter histórico, enriquecida com testemunhos de conversão, que alcançou um sucesso inesperado nos cinemas, reunindo mais de meio milhão de espectadores.
Em meio às turbulências que marcam este mundo cada vez mais afastado de Deus, começa a cumprir-se a promessa transmitida por Nosso Senhor por meio de Margarida Maria Alacoque àqueles que se consagram ao seu Coração: “Os pecadores encontrarão, em meu Coração, uma fonte inesgotável de misericórdia; as almas tíbias tornar-se-ão fervorosas pela prática dessa devoção; e as almas fervorosas elevar-se-ão, em pouco tempo, a uma alta perfeição.”
Neste mês de junho, somos convidados a acolher a sugestão do Pe. Júlio Chevalier, fundador dos Missionários do Sagrado Coração, honrando de modo especial a invocação que ele propagou: Nossa Senhora do Sagrado Coração. Agradeçamos a Deus por ter escolhido Maria para formar em seu seio o Coração de Jesus, pelos sentimentos de amor que esse Coração teve para com sua Mãe e pelo poder que lhe concedeu sobre o seu próprio Coração. E peçamos à Santíssima Virgem que nos conduza até o Sagrado Coração, verdadeira “fonte de vida e de santidade”, como reza sua ladainha.