MALDIÇÃO DO PETRÓLEO

O Brasil entre a riqueza natural e o entrave estatal

  • Hélio Brambilla

O termo “Maldição do petróleo” não é uma invenção retórica, mas um conceito acadêmico e geopolítico consolidado. Ele descreve o fenômeno onde a abundância deste recurso, em vez de gerar prosperidade, acaba por alimentar tiranias, oligopólios e esquemas de corrupção. Embora o petróleo tenha trazido avanços tecnológicos inegáveis, o problema reside no abuso: governos e grupos de interesse utilizam os lucros não para o bem comum, mas para sustentar ideologias e projetos de poder. Como diz o adágio, “o abuso não tolhe o uso”; a falha não está no mineral, mas na ética de quem o gere.

Rentabilidade incomparável e a Petrobrás

A dinastia Rockefeller, através da Exxon, provou que o petróleo é o negócio mais rentável do mundo. A máxima do setor é clara: nada rende mais que uma petroleira bem administrada, seguida por uma medianamente administrada, e, por fim, até uma pessimamente administrada, a qual continua sendo altamente lucrativa. Essa realidade explica por que a Petrobrás sempre foi alvo de cobiça política.

Fundada em 1954 sob o slogan “O petróleo é nosso”, a estatal nasceu de um forte sentimento nacionalista. No início, houve ceticismo sobre a existência de óleo em solo brasileiro, mas o tempo provou o potencial do País. Entretanto, a manutenção do monopólio estatal por décadas retardou a autossuficiência, que poderia ter vindo ainda no século passado, se o mercado fosse aberto. Esse isolamento facilitou desvios monumentais e corrupção, cenário que só mudou com a descoberta do pré-sal, que finalmente elevou o Brasil à condição de produtor superavitário.

O paradoxo do refino e as obras inacabadas

Apesar da autossuficiência em volume bruto, o Brasil vive um paradoxo: nosso petróleo é pesado e de difícil refino. Por isso, exportamos o óleo bruto e importamos petróleo leve e derivados para nossas refinarias, que foram projetadas para outro tipo de óleo.

Para resolver isso, grandes projetos de refinarias foram lançados há cerca de 20 anos, como Abreu e Lima (PE) e o complexo de Maricá (RJ). Contudo, essas obras tornaram-se símbolos do “Petrolão” e de fiascos geopolíticos, como a parceria fracassada com a Venezuela de Hugo Chávez. O resultado são unidades que operam hoje com capacidade muito aquém do planejado, mantendo o País dependente da logística internacional.

Usina produtora
de etanol.

A alternativa dos biocombustíveis

Como resposta histórica à dependência do petróleo, o Brasil criou o Proálcool na década de 70, consolidando uma matriz energética limpa. O etanol brasileiro é “despoluente”, pois o ciclo da cana e, mais recentemente, do milho (com forte produção no Mato Grosso), sequestra carbono da atmosfera. Hoje, o etanol de milho já representa quase um terço do consumo nacional, e a mistura de até 30% de biocombustível na gasolina torna nossa matriz altamente competitiva e ecologicamente correta.

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira foi um ardoroso defensor do Proálcool, por três razões:

1) Questão de segurança nacional frente a qualquer imprevisto da situação mundial.

2) Não ficar à mercê de líderes mundiais autoritários não confiáveis e de ideologia anticristã.

3) Combustível ecologicamente limpo.

A Petrobrás está produzindo em torno de 5 milhões de barris/dia de petróleo e gás. Depois de refinado, dá pouco mais de 3 milhões de barris de combustível (diesel, gasolina e aviação).

A produção de etanol (milho e cana) tem produzido em torno de 1 milhão de barris/dia, ou seja, ⅓ do consumo de combustível ecologicamente correto.

Custo Brasil e extorsão tributária

O ponto mais crítico é a disparidade de preços. A Petrobrás extrai petróleo a um custo de 3 a 5 dólares o barril, mas o preço na bomba segue a cotação internacional de cerca de 100 dólares. Embora a refinaria entregue a gasolina a R$2,57 e o diesel a R$3,65, o consumidor paga valores exorbitantes.

A explicação é a carga tributária escorchante. O governo pratica uma verdadeira extorsão mediante os impostos em cascata. O botijão de gás, que sai da refinaria a R$34,70, chega ao cidadão por mais de R$100,00. Como o transporte no Brasil é majoritariamente rodoviário, esse custo infla o preço de tudo, desde o prato de comida até o transporte de passageiros.

Necessidade de um Estado menor

A “Maldição do petróleo” no Brasil manifesta-se na utilização da estatal como tabuleiro político. Discursos mudam conforme a conveniência: na oposição, prega-se a “canetada” para baixar preços; no governo, alega-se a independência da empresa para mantê-los altos, sempre transferindo a culpa para fatores externos, como crises no Irã ou decisões de potências estrangeiras.

A solução definitiva exige que o Brasil produza etanol em escala ainda maior — com potencial para dobrar dos atuais 40 para 80 bilhões de litros — através de incentivos fiscais e impostos simbólicos. Contudo, nada disso terá efeito se o governo não reduzir sua “voragem de impostos” para sustentar uma máquina pública pesada e cara. A prosperidade do brasileiro depende da redução do tamanho do Estado e do fim da burocracia que asfixia a produção e mantém bolsões de pobreza em um país tão rico.

Locomotiva do Brasil sob pressão

O agronegócio consolidou-se como o setor determinante para a economia brasileira. Atuando como a principal locomotiva do País, o setor é o responsável direto pelos superávits de exportação e pela manutenção dos índices de produção nacional. No entanto, o cenário atual revela uma crise profunda que ameaça essa estrutura, exigindo uma análise rigorosa das causas e consequências desse fenômeno.

Êxodo da produção

Dada a baixa carga tributária em países vizinhos em 2025, observou-se um movimento migratório significativo de produtores e empresas brasileiras para esses países. Aproximadamente 17 mil pessoas e mais de 200 empresas transferiram suas bases para o Paraguai e o Uruguai. A principal motivação para esse êxodo foi e continua sendo a disparidade tributária: enquanto no Brasil a soma dos impostos ultrapassa os 40%, o Paraguai apresenta a carga mais baixa da América Latina, fixada em apenas 14%, segundo dados da BBC de Londres. Somam-se a isso a oferta de energia barata e a redução da burocracia. O fenômeno estende-se a outras fronteiras. Mais de 150 famílias de agricultores migraram para a Bolívia, para o cultivo de soja. Paralelamente, produtores de Roraima estão se deslocando para a Guiana, para o plantio de arroz e soja, atraídos por incentivos governamentais e pela estrutura logística em expansão, que inclui estradas e pontes conectando as áreas produtivas aos portos locais. O agronegócio brasileiro, reconhecido por sua tecnologia de ponta, tem sido bem acolhido nesses países, levando conhecimento e avanços técnicos em troca de menores custos operacionais.

Crise institucional e sustentabilidade

A alegação comum entre os que deixam o Brasil é a falta de auxílio governamental, em contraste com o que descrevem como uma “perseguição” ao setor, traduzida em tributação elevada e leis ambientais cada vez mais restritivas. Ironicamente, o Brasil detém o maior índice de preservação ambiental do mundo, mantendo 65% de suas florestas nativas, um dado sem paralelos globais.

Recorde de recuperações judiciais e o impacto social

O ano de 2025 registrou o maior volume de recuperações judiciais da história, entre proprietários rurais: 1.990 casos, representando um aumento de 56,4% em relação a 2024. Analistas apontam como causas principais a combinação de altos custos de produção, carga tributária excessiva, queda nos preços internacionais — possivelmente influenciada por pressões externas — e taxas de juros elevadas para custeio e aquisição de maquinário. O agravante climático também desempenhou um papel crítico. No Rio Grande do Sul, a conjunção desses fatores econômicos com os desastres naturais recentes resultou em uma tragédia humana inédita: o registro de 39 suicídios entre pequenos e médios proprietários rurais. O cenário no estado foi agravado pelo descaso nas infraestruturas de prevenção, resultando no assoreamento de rios e inundações que devastaram propriedades.

Apelo à consciência

A situação atual demanda um alerta urgente às lideranças rurais e uma mudança na postura governamental. O setor, movido por um dos povos mais empreendedores do planeta, enfrenta hoje obstáculos que impedem o Brasil de atingir o grau de grande potência que sua vocação produtiva permite.

Peçamos a Deus e à Virgem de Aparecida, Padroeira do Brasil, que deem luz aos nossos dirigentes, para levar o País ao seu destino grandioso!