O mais importante aliado dos talibãs

Um dos chefes talibã com o embaixador da China
  • Péricles Capanema

Dias atrás, Zabihullah Mujahid, porta-voz dos talibãs, fez reveladoras declarações, ainda que congruentes e esperadas: “A China representa oportunidade fundamental e extraordinária para nós, porque está pronta a investir em nosso país e reconstruí-lo. É nosso mais importante parceiro”. Reconstrução, trabalho para o qual serão necessários anos, talvez décadas. E já tem patrono: Pequim.

Parceria açambarcadora. Avançando na mesma trilha, Zabihullah afirmou, o Afeganistão apoia a gigantesca política do “One Belt, One Road Initiative” (Iniciativa de um Cinturão e uma Rota, em tradução informal), enorme rede de infraestrutura, portos, ferrovias, estradas e parques industriais, com centro na China, envolvendo Europa, Ásia e África, destinada a consolidar o domínio sínico em toda essa enorme região. Continuou o solícito porta-voz, existem no país “importantes minas de cobre que, modernizadas, graças aos chineses, podem voltar a operar”. Indicou a mais que a China será o caminho para o Afeganistão, país mediterrâneo (sem saída para o mar), atingir os mercados mundiais. Na ocasião, ressaltou ainda que o Afeganistão vê a Rússia como parceiro importante e que o país manterá boas relações com Moscou.

Pote de barro. Uma fábula e um axioma político apareceram naturalmente nos telões da memória. La Fontaine é o autor da fábula. Em “pote de ferro e pote de barro”, aquele convida este para uma viagem. O pote de terra recusa, qualquer esbarrão o reduziria a pedaços. Bobagem, redarguiu o pote de ferro; ele o protegeria dos golpes, poderiam caminhar juntos sem problemas. Não deu outra, já nos primeiros cem passos, o pote de ferro se chocou com o pote de barro, que foi reduzido a cacos. Moral da história: cuidado com as alianças em que um é muito forte, o outro é muito fraco. Agora, o axioma político. Atribui-se a Bismarck o dito que em toda aliança um é o cavalo, outro a cavalgadura. Mesmo exagerada, a frase rude revela realidade comum. Quem é o pote de barro no caso acima? Quem a cavalgadura?

Um novo protetorado no centro da Ásia. Postas as presentes circunstâncias, o Afeganistão — pouco mais de 650 mil quilômetros quadrados, na casa de 40 milhões de habitantes — caminha para ser protetorado efetivo, ainda que inconfessado, da China. Um passo a mais do expansionismo chinês. Significativamente, já com hábitos de protetorado, nem uma palavra do governo afegão sobre a minoria uigur, população muçulmana de maioria sunita, uns 10 milhões, reprimida ferozmente pelas autoridades de Pequim. Estima-se que quase dois milhões de uigures vivam em campos de confinamento em Xinjiang — nos eufemismos do governo chinês, campos de reeducação para limpar corações, fortalecer a retidão e eliminar o mal. A China comunista, no Ocidente, tem sido acusada de genocídio praticado contra os uigurs; entre os acusadores está o governo dos Estados Unidos. O Afeganistão vizinho e muçulmano se cala a respeito.

Irã, Arábia Saudita, Paquistão. Em 2001, no anterior governo talibã, os únicos países que o reconheciam eram a Arábia Saudita, Paquistão e os Emirados Árabes Unidos. O Irã xiita não o reconhecia. Como se apresentará a situação agora? Terão apoio em potências muçulmanas? Terão o controle interno do país? Há muita oposição entre confissões religiosas, etnias, tribos que constituem o tecido interno das populações afegãs. E é um povo que não teme a guerra, luta com facilidade; não sem motivo o Afeganistão foi chamado de cemitério de impérios. E para muitos afegãos o talibã é visto como o dominador estrangeiro.

Liberdades naturais. Há o dever moral, ademais de interesses estratégicos, de proteção às liberdades naturais no Afeganistão pelos países ocidentais. Ponto importante, apoiar e estimular a reação interna diante da repressão crescente com alegada base na sharia. Líderes tribais, que merecem sustentação, já devem estar sendo perseguidos pelo governo, tendo o respaldo de China, Rússia, algumas potências e movimentos muçulmanos. Organizações defensoras dos direitos humanos, em especial dos direitos das mulheres, têm o dever de agir com energia. O silêncio conivente delas será parecido com a posição do governo afegão diante do genocídio uigur.

A reconquista. Não há como fugir ao dever, começou para os afegãos e também para o Ocidente a etapa da reconquista: É infame e suicida entregar de mão beijada a Pequim e aos talibãs enorme e promissor país no centro da Ásia.