SANTA ALICE DE LA CHAMBRE

Também chamada de Santa Alice De Schaerbeek, sua vida é pouco conhecida, mas de extraordinária e trágica beleza. Alma de escol, escolhida pelo Salvador para O auxiliar a carregar sua cruz como vítima reparadora pelos pecados do mundo. Festividade litúrgica fixada no dia 15 de junho.

  • Plinio Maria Solimeo

Alice, Alix ou Adelaide nasceu em uma família nobre por volta de 1220 em Schaerbeek, perto de Bruxelas, então no Ducado de Brabante. Desde pequena foi uma alma predestinada. Segundo sua Vida, escrita em latim entre 1260 e 1275 por um capelão anônimo de La Chambre ou pelo abade de Villers no mesmo período — e da qual tiramos os dados que seguem —, era “amável e graciosa aos olhos de todos”, e desde cedo escolheu a Mãe de Deus como modelo.

Inteligência viva e memória indefectível

Alice recebeu em casa uma muito boa educação religiosa e aos sete anos de idade decidiu ingressar como interna no mosteiro cisterciense “Câmara de Santa Maria”, conhecido familiarmente como “A Câmara”— ou, em francês, “La Chambre”. Esta abadia ficava a alguns quilômetros de Schaerbeek, hoje bairro de Bruxelas, onde Alice permaneceu até o resto de seus dias como Irmã Leiga.

De natureza sensível e bem dotada em todos os domínios por sua inteligência viva e memória indefectível, “graças à luz da verdadeira sabedoria recebida do alto”, Alice logo eclipsou as outras meninas que, como ela, eram internas no mosteiro, e mesmo as irmãs mais velhas. Pois a luz sobrenatural que deveria banhar a vida e a missão da santa começava já a fazer seus dons naturais despertarem e se desenvolverem ao máximo.

Diz a Vida que Alice começou progressivamente a atrair sobre si o fardo da humana fragilidade pecadora, chegando a um conhecimento experimental de Deus e a um crescimento na vida espiritual que já a levavam a respirar o aroma que emana dos frutos da Terra prometida. Enquanto isso, esforçava-se por experimentar nos seus atos, através do amor, o que ela concebera antes pela inteligência no profundo conhecimento de si mesma. Para ela, o temor de Deus era a fonte da qual fluía o amor, e foi por causa desse amor que ela passou a mortificar seus sentidos e a castigar sua carne.

Leprosa para o resto da vida

Foi aí que Alice, ainda muito jovem e logo após a profissão religiosa aos 20 anos, contraiu uma das doenças mais terríveis de todos os tempos: a lepra. 

Na Idade Média, na qual ela vivia, essa doença, por ser muito contagiosa e para a qual ainda não havia cura, condenava suas vítimas a uma verdadeira morte civil. Por isso, se ela não estivesse reclusa no mosteiro, teria sido segregada em um leprosário e evitada por todos, até por seus parentes.

Contudo, como ela se encontrava numa casa religiosa, isso não ocorreu. Ela foi apenas isolada do resto da comunidade e enclausurada para sempre num pequeno quarto destituído do mínimo conforto, usado para depósito, para dele não mais sair.

Este representou um destino terrível para a jovem Alice. Pois, além da dor contínua de suas chagas purulentas, muito expansiva, ela amava estar perto das pessoas para ajudá-las e com elas conversar. Era mesmo uma líder nata.

Agora, levando uma vida solitária como uma pária da sociedade, ela teria que descobrir como continuar a ser para o próximo essa luz.

Mas essa reclusão tinha suas compensações. Nesse cubículo Alice se sentia mais livre para se entregar inteiramente a Deus. Quando nele ingressou, Nosso Senhor lhe apareceu e, estendendo-lhe os braços, disse: “Sê bem-vinda, minha querida filha. É bom que venhas, tu que eu desejo há tanto tempo, nesta tenda que me convém.”

O complexo abacial de La Chambre,
segundo uma gravura do início do século XVII.
(Wikimedia / Domínio Público)

Consolo da Missa diária

Outro consolo da jovem leprosa no pequeno quarto foi o fato deste ser dotado de um minúsculo oratório no qual se celebrava diariamente o Santo Sacrifício. Ora, um dia uma mulher que estava próxima para assistir à Missa do lado de fora, o viu completamente envolto em chamas, e a esposa de Cristo cercada por elas. Viu também a glória de Deus que permanecia no aposento, uma glória da qual o brilho ultrapassava incomparavelmente o esplendor de qualquer pedra preciosa.

A ação da santa, agora restringida à sua comunidade, foi estendida por ela em primeiro lugar às almas que sofriam no Purgatório e de cujas dores penitenciais ela participava. Mas isso não bastava à sua imensa caridade: logo ela abraçou todo o gênero humano, tanto vivos quanto mortos.

Além desses sofrimentos de caráter sobrenatural, como vítima expiatória ela devia conviver com a lepra, cujas terríveis dores eram consoladas por companhias celestes e aliviadas por sua profunda devoção ao Sagrado Coração de Jesus, que ela amou ternamente muito antes de essa devoção ser aprovada e adotada pela Igreja.

Missão no último ano de vida

Entrada da abadia atualmente (Creative Commons).

Foi no dia 11 de junho de 1248 ou 1249 que Alice recebeu os Últimos Sacramentos. Mas deveria viver ainda um ano, que seria o mais fecundo de sua vida.

Assim, um ano depois de ter contraído a lepra, a santa virgem ficou paralítica e perdeu a visão do olho direito. Ofereceu essa privação e esse sofrimento em proveito de Guilherme II, conde da Holanda e da Zelândia (1234-1256) e Rei da Alemanha, para que Deus o iluminasse em suas empresas. Este monarca precisava muito de suas orações, pois faleceria precocemente em combate aos 28 anos.

Pouco depois Alice perdeu o uso do olho esquerdo, e ofereceu essa perda em favor do rei São Luís, que estava em Damieta durante a Sétima Cruzada,“a fim de que o olhar de luz de Deus o ilumine”. A perda da luz física, para Alice, significava que a comunicação com os outros deveria ser então pela luz espiritual.

De 30 de março até o último dia de sua vida, ela foi atrozmente torturada três ou quatro vezes por dia pelos demônios, devendo suportar os tormentos terríveis e horrivelmente dolorosos tanto do inferno, quanto do purgatório.

Durante os sofrimentos, a grande consolação de Alice era a recepção da Sagrada Eucaristia, que desempenhou papel fundamental em sua vida espiritual. Sua compreensão e devoção à Eucaristia eram profundas, pois ela a via como uma fonte de força e alimento. Esse vínculo sacramental com Cristo era central para sua fé. Durante a ação de graças, após a comunhão, ela sempre permanecia misteriosamente nos braços de Jesus.

Propagou-se muito, sobretudo no fim de sua vida, que Alice tinha o poder de operar milagres e operar curas inexplicáveis. Essa fama concorreu depois significativamente para a sua canonização.

Post Scriptum

Alice morreu no dia 11 de junho de 1250. Apesar de ter fama de santidade ainda em vida, foi só no início do século XVIII que Clemente XI, por um decreto de 1º de julho de l702, concedeu aos monges da Congregação de São Bernardo, a faculdade de celebrar seu culto.

Finalmente, dois séculos depois, estava reservada ao imortal São Pio X a glória de canonizá-la no dia 24 de abril de 1907, ressaltando o compromisso da canonizada com sua fé e sua comunidade.

Santa Alice de Schaerbeek, cuja memória litúrgica é celebrada em 15 de junho, foi incluída no Martirológio Romano como a padroeira dos cegos, dos paralíticos e dos doentes em geral.

Nos últimos tempos, Santa Alice tornou-se mais conhecida entre os estudiosos da Idade Média, que ao analisarem a vida das chamadas “Mulheres Sagradas de Liège”, reportavam-nas a essa santa.

Esse foi um grupo notável de místicas que viveram na região de Liège entre os séculos XII e XIII. Elas se destacavam por sua espiritualidade fervorosa e pela maneira inovadora com que viviam sua fé, muitas vezes fora das estruturas monásticas tradicionais.

Alguns chegam a afirmar que a espiritualidade de Santa Alice teria influenciado significantemente também o movimento das “beguinas” — mulheres que viviam sua fé religiosa sem fazer os votos religiosos formais, meio à margem das estruturas monásticas tradicionais, cuidando de doentes e pobres, sem assim se isolarem inteiramente do mundo. A vida de Alice teria se cruzado com esse movimento na medida em que ela se envolvia ativamente em suas obras de caridade.

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Obras consultadas:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Alice_de_Schaerbeek

https://liveisgod.com/saints/saint-alice-of-schaerbeek/

https://catholico.wordpress.com/2017/06/17/saint-alice-of-schaerbeek/