SANTO AMBRÓSIO

História de Santo Ambrósio – Galleria dell’Accademia de Veneza.

De nobre família romana, foi Confessor e Doutor da Igreja, governador civil de Milão e depois bispo, conselheiro de imperadores e do Papa. Teve papel decisivo na conversão de Santo Agostinho. Esta matéria se limitará a ressaltar sua coragem e a humildade de um imperador.

Festividade litúrgica: 6 de novembro.

  • Plinio Maria Solimeo

O que pode ocorrer quando o poder espiritual e o temporal se chocam, ainda mais quando ambos são representados por figuras de relevo e de grande personalidade?

         Se voltarmos mais de 1600 anos no tempo, poderemos ter uma boa ideia disso num episódio em que estavam, de um lado, o grande Santo Ambrósio, bispo de Milão, e do outro, Teodósio I, Imperador Romano do Oriente.

         Em tal episódio fica muito patente a supremacia do poder espiritual sobre o poder terreno, apesar de se estar diante de um tão poderoso Imperador que mereceu da História o cognome de Magno.

Um dos mais ilustres Padres e Doutores da Igreja

         Um dos mais ilustres Padres e Doutores da Igreja, Santo Ambrósio nasceu provavelmente pelo ano 340, quando seu pai era prefeito das Gálias, um dos cargos mais elevados a que se podia chegar no Império Romano do Ocidente.

         Dedicou-se ao estudo e à prática do direito, carreira na qual se distinguiu tanto, que obteve do imperador Valentiniano I o cargo de governador consular da Ligúria e Emília, com residência em Milão.

         Vagando a diocese milanesa e havendo tumulto entre católicos e arianos pela eleição do novo bispo, Ambrósio, como governador, falou ao povo, pedindo ordem e tranquilidade para proceder-se à eleição. Enquanto falava, uma voz infantil bradou: “Ambrósio bispo!” O brado foi imediatamente repetido pela unanimidade dos presentes, e o governador, apesar de ainda catecúmeno, foi eleito bispo de Milão[1]. Convém lembrar que naquele tempo os bispos ainda eram eleitos por aclamação popular.

         Santo Ambrósio foi um modelo do verdadeiro bispo católico, zeloso pela ortodoxia e pelo bem das almas, empreendedor, enérgico, mas benevolente, inteiramente intransigente em matéria de fé e costumes. Foi, por isso, um adversário formidável do arianismo e de todas as heresias que surgiram nos primeiros séculos da Igreja. Escreveu várias obras de valor, que lhe valeram o título de Doutor da Igreja.

Santo Ambrósio impede Teodósio de entrar na catedral de Milão – Anthony van Dyck (1599-1641). National Gallery, Londres

Primeiro imperador genuinamente cristão

         Pode-se afirmar que Teodósio I foi de fato o primeiro imperador genuinamente cristão.

         Nascido na Espanha pelo ano 346, por seu valor conquistou logo os primeiros postos no exército romano, até ser nomeado Imperador Romano do Oriente por Graciano, que herdara os dois Impérios. Teodósio esmagou os últimos vestígios do paganismo no Império, proibindo os sacrifícios pagãos, agouros e feitiçaria como crimes de lesa-majestade; pôs fim, nele, à heresia ariana, e proclamou a religião católica como religião do Estado.

         Tendo vindo a Milão, depois de restaurar no Ocidente a ordem quebrada por um usurpador, Teodósio tomou-se de afeição pelo bispo dessa diocese, que considerava como modelo acabado de como deve ser um bispo católico. Santo Ambrósio também tinha estima por ele, em quem via um governante justo e piedoso.

Embate entre os dois poderes

Santo Ambrósio absolvendo Teodósio — Pierre Subleyras (1699-1749). Galeria Nacional da Úmbria, Itália

         Uma ocorrência viria perturbar o entendimento entre os dois. Em abril de 390, na cidade de Tessalônica, na Macedônia, o governador da cidade, muito amigo do imperador, e outros oficiais imperais foram mortos pela população enraivecida por ter sido posto a ferros um comediante muito querido da multidão. Quando a notícia da sedição chegou a Milão, Ambrósio e o concílio dos bispos, ao qual presidia, fizeram um apelo à clemência do imperador. Aparentemente tiveram êxito.

Entretanto, Teodósio, num mau momento, cedendo às pressões dos seus, que o acusavam de fraqueza, exclamou: “Já que toda a população é cúmplice do crime, que toda ela sofra o castigo”. E decretou que todos os tessalonicenses, sem exceção, fossem passados a fio da espada. Quando se arrependeu de sua precipitada ordem, já era tarde. O fato estava consumado. Assim, foram mortos indistintamente homens, mulheres e crianças, num total de sete mil pessoas.

Santo Ambrósio, horrorizado com tamanha carnificina e crueldade, escreveu enérgica carta ao imperador dizendo: “O que se fez não tem coisa que lhe pareça na memória dos homens. O único remédio ao mal é o testemunho do arrependimento”.

No domingo seguinte, como de costume, Teodósio foi à igreja para assistir ao Santo Sacrifício, como se nada tivesse acontecido. Santo Ambrósio, vestido com todos os paramentos episcopais, barrou-lhe a entrada.

“Detende-vos, Imperador”, disse ele. “Como vossos pés ousarão pisar o solo do santuário? Como ousareis elevar para Cristo vossas mãos ensanguentadas? Como levareis seu Sangue a vossos lábios que, por uma palavra de cólera, fizeram derramar o de tantos inocentes? Retirai-vos, pois, para não acrescentar um novo pecado àquele de que sois culpado. Aceitai a pena que o Deus soberano vos impõe. É o remédio que fará retornar a saúde à vossa alma” (Teodoreto, V, 16)[2].

O que fez o possante imperador diante dessa humilhação pública? Diz Santo Agostinho: “Com religiosa humildade, Teodósio se submeteu; e sendo atingido pela disciplina da Igreja, fez tal penitência que o povo que estava intercedendo por ele tinha mais tristeza por ver a humilhação da dignidade imperial, do que havia experimentado terror de sua cólera contra os inimigos” (De Civ. Dei, V, 26)[3].

Na oração fúnebre que fez desse grande imperador, Santo Ambrósio narra o que se seguiu: “Despojando-se de todo emblema da realeza, publicamente, na igreja, ele deplorou o seu pecado. Essa penitência pública, da qual os particulares fogem, um imperador não se envergonhou de fazer; nem houve depois um dia em que não se afligisse por seu erro”[4]. E essa penitência ele a fez durante oito meses, privado não só da Comunhão, mas proibido também de entrar na igreja.

“Solicitar o remédio que pode curar minha alma”

Cabeça encontrada perto da base da estátua dedicada a Teodósio, na antiga cidade de Afrodisias

Chegou então o dia de Natal de 390. Teodósio decidiu-se a apresentar-se na igreja, dizendo ao bispo: “Venho solicitar o remédio que pode curar minha alma”. Santo Ambrósio pediu-lhe então que, ali mesmo, assinasse um decreto pelo qual dispunha que nenhuma pena de morte fosse executada antes de 30 dias depois de promulgada.

“Não há dúvida — dizia mais tarde o Imperador lembrando-se deste sucesso —, Ambrósio fez-me compreender por vez primeira o que é um bispo”. Com razão se disse que esta vitória da Igreja é uma daquelas que se podem chamar vitória da humanidade. A última palavra não foi dada pela força, mas pelo direito. O bispo representava não só o Evangelho, mas a consciência humana[5].

Entrando na igreja, o grande príncipe prosternou-se, banhando o solo com lágrimas e, penetrado de dor e contrição, pediu a Deus perdão por seu crime.

Cripta da Igreja de Santo Ambrósio, em Milão, onde reposam os restos de Santo Ambrósio, São Gervásio e São Protásio [Foto: Frederico Viott).

         O mesmo Santo Agostinho, fazendo uma reflexão sobre esse acontecimento, diz que Deus quis que esse imperador fizesse penitência pública e se humilhasse em presença de todo o povo, para que aprendêssemos a fazê-la quando nossos crimes o pedirem; e que nem o pobre nem o rico, nem o artesão nem o grande senhor, devem enrubescer-se de submeter-se a esse soberano remédio que um príncipe tão poderoso como Teodósio não recusou[6].

Teodoreto (c. 393-466), escritor eclesiástico, que traz os pormenores desse episódio, diz que o Imperador, depois de oferecer no altar os dons, segundo o costume, permaneceu no presbitério como costumava fazer nas igrejas do Oriente, esperando a hora da Comunhão. Santo Ambrósio — que desejava acabar de purificar o grande príncipe — mandou um diácono dizer-lhe que, apesar de Imperador, ele não podia ficar nesse lugar, que era reservado apenas para clérigos.

Teodósio recebeu essa derradeira humilhação com uma modéstia e submissão admiráveis, dizendo apenas que não era por orgulho ou presunção que ele tinha ficado ali, mas porque assim o fazia nas igrejas orientais. E, saindo do presbitério, foi para junto do povo[7].

Esse grande e invicto general e insigne Imperador faleceu prematuramente com cerca de 56 anos de idade, sendo assistido por Santo Ambrósio, seu verdadeiro e fiel amigo.         

No comovente panegírico que fez por ocasião de seu falecimento, diante dos restos mortais do grande Imperador e de seu filho Honório, Santo Ambrósio o descreve como uma alma ardorosa, devotada do mesmo modo à Lei de Deus e à pátria. E diz: “Mesmo enquanto a morte dissolvia seu corpo, ele estava mais preocupado com o bem-estar das igrejas do que por seu perigo pessoal. […] Eu o amei, e estou confiante de que o Senhor será propício às preces que faço por sua piedosa alma” (In obitu Theodosii, c. 35)[8].

Poder-se-ia pensar numa coisa dessas em nosso tempo tão igualitário e cheio de preconceitos, em que os amigos só o são pelo fato, de certo modo, de serem cúmplices com nossos defeitos? Pode-se, por outro lado, pensar também num homem de Igreja que tenha, em nossos dias, esse destemor e essa energia, e num chefe de Estado com essa docilidade e submissão?

É provável que, se houvesse um bispo com a coragem do grande Santo Ambrósio, até uma autoridade civil de hoje se submetesse.


[1] Cfr. James F. Loughlin, St. Ambrose, The Catholic Encyclopedia, CD Rom edition. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo XIV, p. 110.

[2] Duc Albert de Broglie, Saint Ambroise, Librairie Victor Lecofre, Paris, 1899, p. 155.

[3] Saint Augustin, La Cité de Dieu, par l’abbé Gabriel Vidal, Église Saint Marie, Alger, 1930, p. 110.

[4] James F. Loughlin, St. Ambrose, The Catholic Encyclopedia, CD Rom edition.

 [5] Cfr. Frei Justo Perez de Urbel, O.S.B., San Ambrosio, Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo IV., p. 496.

[6] Cfr. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo XIV, p. 111.

[7] Cfr. Broglie, p. 160.

[8] In James F. Loughlin, op. cit.