
Evaristo de Miranda
6 de janeiro é dia dos Reis Magos. Começam no Brasil as Folias de Reis, os Santos Reis ou Reisados, uma das mais expressivas tradições religiosas e populares do mundo rural. Como nas festas juninas, o campo invade cidades e casas, com toda a sonoridade e as cores de sua agrocultura.

Em Portugal, as Folias de Reis tinham como principal finalidade divertir o povo e relembrar a peregrinação dos Reis Magos até Belém para adorar o Menino-Deus. No Brasil, a partir do século XVIII, a festividade assumiu um caráter mais religioso com características próprias e muita ruralidade.
A Folia de Reis é uma manifestação popular e rural de rara beleza, comemorada em cidades do interior do Nordeste, Sul e Sudeste e nas periferias das capitais. Seus ritos e personagens são muitos, sonoros e coloridos. Do dia de Reis até a festa de São Sebastião em 21 de janeiro, grupos de cantadores e instrumentistas percorrem bairros, vilas e fazendas entoando versos, rezando e cantando. As músicas e os ritmos das Reisadas são típicos e envolventes.

Os ritos e versos seculares dessa festa rural foram preservados de geração em geração, pela tradição oral. São dramatizadas passagens bíblicas do nascimento de Jesus, da visitação dos Reis Magos e da fuga da Sagrada Família para o Egito. Os foliões caracterizam-se como os personagens de suas imaginativas histórias bíblicas.
Coloridos palhaços fazem acrobacias. Originalmente, sua função era distrair os soldados do Herodes enquanto a Sagrada Família fugia ao Egito. Hoje, barbados, eles representam os soldados do Herodes. Tudo comandado por um Mestre, com a bandeira dos Santos Reis e seu grupo de músicos. A criatividade é grande. Os grupos são espontâneos e até caóticos nas apresentações. Tudo faz parte do patrimônio imaterial da cultura brasileira.
No Brasil, os Reis Magos ganham presentes! Nesse ritual da visitação às casas, ao contrário dos Reis Magos da tradição evangélica, o objetivo não é o de entregar presentes, e sim recebê-los. Tudo em nome dos Santos Reis. A Folia em muitos casos é organizada para agradecer uma graça atendida ou desejada. Estes presentes são dados pelo dono da casa, sitio ou fazenda visitada: dinheiro para a manutenção do grupo, bebidas e comidas natalinas.

As diversas formas das Folias de Reis mantém componentes imutáveis. Sempre têm um Mestre, chefe respeitado dos foliões. Ele decide roteiro, vestimentas, músicas, bandeira, disciplina, guarda dos donativos e a festa. Na canção de chegada, o Mestre é quem pede permissão ao dono da casa para entrar. Na canção da despedida, agradece a acolhida.
Resgatadas em diversos municípios do Brasil, as Folias de Reis logo conseguem ampla participação popular, inclusive em ambientes urbanos. Já são setenta encontros nacionais de Folias de Reis, numa vitalidade típica do interior e com a seiva do agro e do mundo rural.
Se tiver a sorte da bandeira dos Santos Reis bater à sua porta, abra, acolha esses foliões, com suas danças e cantos sagrados e profanos. Não lhes negue comida, bebida e prendas adequadas. Bom começar assim, um Novo Ano.