AMÉRICA LATINA — Transição para a centro-direita

  • Juan Antonio Montes
  • Fonte: Revista Catolicismo, Nº 901, Janeiro/2026

Ao longo de vários anos, os pleitos eleitorais latino-americanos favoreceram de maneira quase ininterrupta os partidos de esquerda. Muitos acreditavam então que seus ideólogos conseguiriam manter para sempre o controle dos governos que lideravam. Contudo, o ano de 2025 mudou decisivamente o rumo político do Continente.

Um dos fatores favoráveis aos partidos de centro-direita foi, sem dúvida, o evidente fracasso do ‘chavismo’ venezuelano. Mais de sete milhões de exilados daquele país expuseram as feridas sociais de um experimento desastroso, que se arrasta há mais de um quarto de século.

Falar em “ajuda aos pobres” ou em igualdade para todos, e ao mesmo tempo simpatizar com governos marxistas — como o de Maduro — é um discurso de cada vez menor credibilidade.

As urnas confirmam essa mudança.

1. Equador reelege seu presidente

No segundo turno das eleições presidenciais, em abril de 2025, o candidato Daniel Noboa obteve aproximadamente 55,8% dos votos, contra 44% de sua rival de esquerda, Luisa González, candidata fantoche do foragido ex-presidente socialista Rafael Correa.

A reeleição de Noboa representou uma rejeição contundente às promessas populistas do Partido da Revolução Cidadã, fundado por Correa em 2018. Os eleitores optaram assim por uma alternativa que prometia menos ênfase nos amplos programas sociais característicos da esquerda; e mais em segurança, ordem e apoio ao setor privado.

Esse resultado favorável à centro-direita no Equador marcou o início de uma mudança que, como veremos, se repetiu posteriormente em outras nações.

2. Argentina reafirma seu apoio ao presidente Milei

Presidente da Argentina Javier Milei

As eleições nacionais para a renovação do Congresso argentino ocorreram em 26 de outubro de 2025. Apesar dos prognósticos desfavoráveis ​​ao partido governista, a vitória do governo Milei foi inegável. Com participação eleitoral de quase 70%, o bloco governista alcançou mais de 40% dos votos em todo o país.

Essas eleições são consideradas um “teste” para avaliação do governo Milei (eleito em 2023) e do seu apoio antes da segunda metade de seu mandato. O triunfo de La Libertad Avanza (A Liberdade Avança) assegurou a continuidade das reformas propostas por Javier Milei, incluindo a redução do tamanho do Estado e a abertura e liberalização da economia.

Esse resultado também representou um golpe simbólico para o domínio tradicional do peronismo em certas províncias-chave, o que poderá alterar o equilíbrio de poder regional na Argentina em um futuro próximo.

Além disso, foi mantida a condenação da ex-presidente socialista Cristina Fernández de Kirchner, pelo crime de “administração fraudulenta em detrimento da administração pública”, relacionado a 51 contratos de obras públicas na província de Santa Cruz. Assim a ex-presidente está legalmente impedida de ocupar cargos públicos; e a um passo da prisão, deixando o movimento peronista sem sua liderança contínua de 12 anos.

3. Bolívia: Mais uma surpresa a favor do centro-direita

Nas eleições gerais de 17 de agosto de 2025, o partido de esquerda Movimiento al Socialismo (MAS), dominante na Bolívia, sofreu uma derrota retumbante: seus candidatos obtiveram números extremamente baixos (um deles,com cerca de 3% dos votos) no primeiro turno.

Os dois candidatos que avançaram para o segundo turno eram de centro-direita. Rodrigo Paz venceu com cerca de 54,5% dos votos, contra 45,4% de Quiroga. Juntos, esses dois candidatos de centro-direita alcançaram 99,9% de apoio da população no segundo turno.

No Congresso boliviano, o MAS também perdeu a maioria e foi praticamente varrido de muitas cadeiras, confirmando que não se tratava apenas de uma vitória presidencial, mas de uma profunda mudança no equilíbrio do poder político. Esses resultados indicam uma quebra na hegemonia da esquerda na Bolívia — um país que desde 2005 esteve quase ininterruptamente sob o controle do MAS.

Foi significativo que Rodrigo Paz Pereira não tenha convidado líderes de Cuba, Venezuela e Nicarágua para a sua posse, argumentando que esses governos “não representam democracias”. As eleições bolivianas confirmaram a onda de mudança ideológica na América Latina. Não apenas mudanças dentro da esquerda ou do centro-esquerda, mas também mudanças em direção a opções opostas.

4. Colômbia: Um presidente ex-terrorista não consegue conquistar a nação

O presidente Gustavo Petro, antigo membro de um grupo terrorista, foi o primeiro candidato de esquerda eleito na Colômbia, em 2022, concorrendo com uma plataforma de ideais socialistas em um país tradicionalmente católico e conservador.

No entanto, seu governo rapidamente começou a enfrentar crescente insatisfação no povo colombiano. Seu passado como guerrilheiro, além de um governo percebido como imprevisível e alinhado à Venezuela, levaram-no a índices recordes de desaprovação entre os colombianos.

De acordo com a pesquisa Atlas Intel/Bloomberg (“Pulso Latino”), realizada entre 20 e 25 de agosto de 2025, Petro tinha um índice de aprovação de 34,1% e um índice de desaprovação de 61,6%.

Outra pesquisa (junho de 2025) indicou que seu índice de desaprovação havia chegado a aproximadamente 64%, com seu índice de aprovação em apenas 29%.

Para as próximas eleições presidenciais, de 8 de março de 2026, as pesquisas indicam: “Candidatos de direita e de centro têm vantagem nas intenções de voto; e os candidatos de esquerda estão ficando para trás, mas ainda não está claro se o segundo turno será exclusivamente entre a direita e o centro”.

5. Peru: crônica de um ciclo interminável

Nesse país profundamente católico e conservador, a desconexão entre a população e os poderes do Estado é evidente.

Desde a década de 1990 a instabilidade política peruana tornou-se quase endêmica: entre 2016 e 2023, vários presidentes sucessivos assumiram o poder — alguns por meio de circunstâncias extraordinárias, como impeachment ou vacância presidencial — com mandatos efêmeros e sem apoio genuíno da opinião pública.

Um dos fatores que explicam essa alternância constante é que os partidos políticos peruanos são baseados em líderes populistas, e não em um conjunto de ideias consolidadas, o que aumenta o nível de desaprovação popular.

Enquanto os partidos políticos não conseguirem interpretar a vontade dos peruanos e suas profundas raízes católicas, resta pouca esperança de se alcançar a estabilidade institucional. No entanto, como sinal da separação entre as forças vitais da nação e os poderes constituídos, a economia cresceu, demonstrando que o espírito empreendedor dos peruanos é capaz de resistir aos altos e baixos da política.

6. Chile dá as costas à insurreição da esquerda

O direitista José Antonio Kast, presidente recentemente eleito no Chile

Os recentes resultados finais das eleições presidenciais no Chile, com a vitória, no segundo turno, do direitista José Antonio Kast, revelam dois pontos importantes a serem considerados.

Primeiro, a direita no país detém a maioria absoluta do eleitorado, o que significa que o próximo governo terá um apoio popular significativo. No entanto, isso também significa que o novo presidente deve atender urgentemente às expectativas desses eleitores: uma mudança decisiva de rumo após o governo Boric, de extrema esquerda.

Segundo, o resultado obtido pela candidata comunista demonstra que a esquerda no Chile continua a angariar apoio considerável entre os eleitores, apesar de ela representar a continuidade de um governo desastroso e de sua trajetória na ala mais radical da esquerda.

Portanto, neste importante Chile se aproxima um período árduo para o novo governo de direita. Numa perspectiva continental, o resultado das eleições também consolida a guinada à direita observada na grande maioria das nações do continente. Assim como demonstrou uma rejeição contundente ao governo Boric que pretendia transformar o Chile em uma república plurinacional nos moldes chavistas.

7. Honduras, último adeus ao esquerdista Zelaya

A candidata Rixi Moncada, representante do deposto presidente de esquerda Manuel Zelaya, perdeu as eleições gerais realizadas em seu país em dezembro de 2025, obtendo cerca de 19% dos votos. Os dois candidatos de centro-direita — Salvador Nasralla (Partido Liberal) e Nasry Asfura (Partido Nacional, conservador) — obtiveram 40,13% e 39,71%, respectivamente, com ambas as opções de oposição representando quase 80% do eleitorado.Tanto Asfura quanto Nasralla declararam que poderiam retomar as relações diplomáticas com Taiwan, rompidas em 2023. Tal movimento representaria o maior revés diplomático para a China comunista na região.

O Conselho Nacional Eleitoral de Honduras atrasou extraordinariamente a divulgação dos resultados finais da votação, fomentando um clima de descontentamento e rumores de manipulação de votos, o que contribui para provocar agitação social.[i]

O denominador comum: Estados cada vez mais frágeis enfrentando gangues internacionais cada vez mais poderosas

Policial com suspeitos de pertencer às gangues do narcotráfico no Equador.

Outra questão a se considerar, no cenário latino-americano, é que nos últimos anos diversos Estados viram sua soberania e capacidade institucional minadas pelo avanço de redes transnacionais que combinam narcotráfico, terrorismo e a tomada do poder real. Países que até recentemente eram considerados relativamente estáveis​​lutam agora para conter a violência de gangues que operam em múltiplasfronteiras: exportam drogas, traficam armas, recrutam jovens e desafiam diretamente o Estado.

Um exemplo primordial é o Equador, que até recentemente figurava entre as nações latino-americanas com as menores taxas de homicídio. Porém, ao se tornar um ponto de trânsito crucial entre os principais produtores de drogas (Colômbia e Peru) e os mercados globais, sofreu um aumento brutal da violência.

Assim, o enfraquecimento do Estado torna-se evidente quando as autoridades civis e militares precisam declarar estados de emergência ou exceção para retomar o controle e neutralizar as ações desses grupos narcoterroristas.

Os países produtores e de trânsito de drogas demonstram que o problema não é apenas interno, mas também internacional. A recente inclusão da Venezuela na lista dos EUA de “Estados Patrocinadores do Narcoterrorismo”, bem como a militarização das rotas marítimas por potências externas, demonstra que esses grupos criminosos operam cada vez mais como atores híbridos, transitando entre o crime organizado, o terrorismo e a guerra de guerrilha.

O impacto político é profundo: o enfraquecimento institucional, a corrupção e a impunidade alimentam um círculo vicioso de controle territorial por grupos criminosos, que oferecem uma “ordem alternativa” em áreas onde o Estado já nãoatua. Essa “cartelização” de estados ou regiões permite que esses atores influenciem eleições locais, tomem o poder de autoridades e expandam seu domínio.

A resposta do Estado, embora intensa em alguns casos, não está atingindo seus objetivos. As forças de segurança, muitas vezes mal equipadas ou infiltradas, enfrentam grupos bem armados e internacionalizados, com recursos financeiros e métodos violentos. Além disso, os Estados precisam colaborar entre si e com potências externas, o que complica a soberania e a governança. Por exemplo, alianças entre gangues mexicanas e européias ou africanas ampliam o alcance dos cartéis para novos mercados.

Para a América Latina, o desafio é duplo: por um lado, recuperar o controle territorial e fortalecer as instituições básicas para estabelecer um Estado de Direito sólido; por outro, reverter a lógica pela qual os criminosos impõem sua “governança”. Caso contrário, a região corre o risco de vários países se tornarem não apenas “narcoestados”, mas “estados párias”, em que o monopólio das forças armadas legítimas é comprometido; e os indivíduos, sentindo-se indefesos, passam a fazer justiça pelas próprias mãos.

Em suma, a internacionalização do narcoterrorismo não é mais uma metáfora; é uma realidade que transcende fronteiras e exige uma reconfiguração da abordagem de segurança. Os Estados latino-americanos, especialmente os mais vulneráveis ​​institucionalmente, enfrentam um adversário globalizado. E a tarefa mais urgente não é apenas perseguir os cartéis, mas reconstruir o tecido institucional, restaurar o monopólio estatal da força e recuperar a confiança pública.

Polarização entre os diferentes governos da região

Até algum tempo atrás, a polarização era considerada um problema interno de cada país. Este ano, pela primeira vez, a polarização afetou inclusive a convivência entre os próprios Estados. Essa afirmação foi feita pelo secretário-geral da OEA, Albert Ramdin, que citou como exemplo o fato de a polarização ter forçado a República Dominicana a anunciar o adiamento da Cúpula Trienal das Américas, que deveria ter ocorrido em dezembro último, devido à impossibilidade de um “diálogo produtivo”. Ele concluiu afirmando que “a América Latina nunca esteve tão polarizada como nos últimos 30 anos”.[ii]

Um exemplo significativo dessa falta de disposição para se chegar a um entendimento foi a atitude do presidente Gabriel Boric durante a posse presidencial boliviana. Quando o presidente argentino aproximou-se para cumprimentá-lo, Boric apenas estendeu a mão e não se levantou, em sinal de desdém.[iii]

Conclusão: um panorama auspicioso carregado de nuvens escuras

De modo geral, 2025 foi um ano com número notável de eleições decisivas na América Latina, dando clara predominância às opções de centro-direita.

No entanto, tais resultados não garantem um futuro brilhante. Paralelamente, e talvez até acima deles, cresce um verdadeiro enxame de micro-poderes paralelos extremamente violentos, infiltrando-se em todos os níveis da sociedade.

É imperativo que os governos eleitos nos países que analisamos deem prioridade à solução dos problemas morais, que são a causa da proliferação desses nefastos poderes paralelos. Para tanto, não basta simplesmente abrir mais prisões; as instituições básicas da nossa sociedade devem ser fortalecidas, a começar pela família cristã.

Peçamos a Nossa Senhora de Guadalupe, Padroeira das Américas, que proteja especialmente as nações consagradas à sua intercessão, guiando-as de volta à plenitude dos princípios da civilização cristã, que representam a mais nobre das nossas tradições.


[i]Agencia Reuters. Laura Garcia, 8 de dezembro de 2025. “Crece la impaciencia en Honduras por el estancamiento en la divulgación de los resultados electorales”.

[ii]Cfr. “EL País”, 10 de novembro de 2025. Albert Ramdin, secretário geral da OEA: “América Latina nunca tinha estado tãon polarizada en los últimos 30 años”

[iii]Cfr. “EL País”, Antonia Laborde. Santiago de Chile – 8-11-25 – “Boric saluda fríamente a Milei en el cambio de mando de Bolivia. El presidente chileno, a diferencia de sus homólogos latinoamericanos, no se pone de pie para saludar al libertario.”

https://elpais.com/chile/2025-11-08/boric-saluda-friamente-a-milei-en-el-cambio-de-mando-de-bolivia.html