COMO CONVERTER UM ATEU

Ao se aprofundar na obra de Santo Tomás de Aquino — o maior dos filósofos católicos — Megan Hodder [foto] percebeu que “confiar nos neo-ateus para argumentar contra a existência de Deus era um erro”.
  • Paulo Henrique Américo de Araújo

O Conde de Bruissard considerava a si mesmo um homem de seu tempo. Socialmente bem-posicionado naquela França da segunda metade do século XIX, aderia à tristemente famosa filosofia positivista. E pior, declarava-se ateu convicto, não titubeando em apresentar-se como tal a qualquer pessoa. Dispunha-se inclusive a enfrentar os adversários, os católicos, com argumentos filosóficos e “científicos” da última moda.

Sorriu com sarcasmo ao ler nos jornais sobre certos fatos extraordinários ocorridos no sul do país. Os devotos ignorantes davam crédito a supostas visões celestes de uma pobre camponesa, conhecida por Bernadete. Resolveu então verificar o caso pessoalmente e “apanhar a pequena vidente em flagrante delito de mentira”.1 Do seu orgulhoso pedestal de incredulidade desbancaria aquilo que considerava como “superstição”.

Representação artística de uma das aparições da Santíssima Virgem a Santa Bernadete.

Argumentos católicos e a graça divina

Para nós católicos, a pergunta se impõe: como quebrar a insolência deste ateu?

São inúmeras as vias das quais dispõe a Providência Divina para atrair a si as almas e retirá-las do abismo da incredulidade. O caminho da apologética tem feito ateus convictos se dobrarem. A partir da imponente obra de seus doutores, intelectuais e filósofos, a Santa Igreja Católica dispõe de um arsenal de argumentos racionais, históricos e de bom senso que, caso sejam estudados com imparcialidade, podem fazer ruir quaisquer sofismas.

Porém, o problema persiste: como fazer o descrente ter boa-vontade para analisar tais argumentos?

Há uma resposta imediata e intuitiva ao problema: é preciso que a ação da graça disponha o ateu a reconsiderar suas posições. Enfrente o incrédulo que não tenha preconceitos e se mantenha de consciência aberta, que nos argumentos católicos ele descobrirá um magnífico palácio de lógica e de coerência.

Santa Bernadete Soubirous

Megan Hodder, jovem inglesa, ateia convicta desde a adolescência, resolveu desafiar a doutrina católica. Antes do confronto, relata ela que “considerava a religião irrelevante em sua vida pessoal e algo que se relacionava apenas com notícias violentas e extremistas”.2Confessa que lia avidamente os expoentes do ateísmo contemporâneo tais como Richard Dawkins, Sam Harris e Christopher Hitchens, cujas ideias eram tão parecidas com as suas que podia empurrar quaisquer incertezas que tivesse para o fundo da mente. No fim das contas, qual alternativa havia para o ateísmo?

No entanto — e aqui entra honestidade intelectual — Megan não estava satisfeita em estudar apenas o lado ateu. Começou então a “pesquisar as ideias dos mais egrégios inimigos da razão, os católicos”, a fim de defender com mais rigor sua “visão de mundo”. Podemos afirmar que a graça preparou esse confronto com a Igreja e foi justamente aí que as coisas começaram a mudar.

Ao se aprofundar na obra de Santo Tomás de Aquino — o maior dos filósofos católicos — percebeu que “confiar nos neo-ateus para argumentar contra a existência de Deus era um erro: Dawkins, por exemplo, dá um tratamento propositalmente superficial a Santo Tomás em ‘Deus, um delírio’, lidando apenas com um resumo das cinco vias do Aquinate, distorcendo as provas da existência de Deus”. Ao analisar atentamente as ideias aristotélico-tomistas, Megan descobriu nelas “uma válida explanação do mundo natural, contra as quais os filósofos ateus tinham fracassado em refutar de modo coerente”.

Sua jornada intelectual para desbancar o catolicismo conduziu-a, pelo contrário, à adesão à Santa Igreja e, por fim, ao batismo e à confirmação, ocorridos na Páscoa de 2013.

Caso semelhante se deu com Patrick Flynn, um americano que abandonou seu pouco instruído catolicismo da infância e se transviou para as mazelas do ateísmo durante a adolescência.3 Contudo, resolveu debruçar-se sobre a doutrina de Santo Tomás de Aquino, após uma “crise existencial”. Percebeu assim que a filosofia perene do grande doutor católico dava respostas coerentes, lógicas e firmes onde os ateus plantavam somente lacunas e contrassensos.

Patrick declara: “Eu me converti primeiro ao tomismo e só depois ao catolicismo! É uma visão de mundo onde há consistência e responde a tudo de modo rigoroso e belo. Essa consistência e coerência, eu só as encontrei na Igreja Católica”.

Um sorriso da graça converte até empedernidos

Mas a conversão de um ateu pode encontrar outros obstáculos. E se de antemão ele não estiver disposto sequer a tomar contato com nossas razões, como fazer essa alma converter-se? Talvez o Conde de Bruissard fizesse parte deste número. Para ele restava o último recurso da graça.

Como vimos, o Conde foi ao encontro de Bernadete, camponesa semianalfabeta, pobre e de saúde precária, mas que tinha sido agraciada com 18 aparições de Nossa Senhora em Lourdes. Não podia haver maior discrepância de forças: a menina ignorante e o homem maduro, seguro de si e de coração endurecido. Como a graça pode dispor um confronto tão desproporcional?

Bruissard encontrou a vidente à porta de sua casa, remendando meias. Que cena desprezível para o orgulhoso descrente! Talvez pensasse ele: como toda essa gente se deixa levar pelas historietas desta pequena?

Pediu a Bernadete que lhe contasse sobre as aparições. Por fim, perguntou como era o sorriso da “bela senhora”. O conde relata que a pequena pastora o olhou admirada, e após um momento de silêncio, disse: “Oh! Era preciso ser um ente celeste para poder imitar aquele sorriso”.

A resposta singela e, em boa medida, poética deve ter produzido um rude golpe na arrogância do ateu, mas ele não arrefeceu o combate. “Não poderia imitar o sorriso da Virgem?”, disse o conde,“Sou um incrédulo e não acredito nas tuas aparições”.

Bernadete assumiu um ar de tristeza e respondeu: “Então, pensa que sou uma mentirosa?”. O homem sentiu-se desarmado e confessa que neste momento esteve a ponto de se ajoelhar e pedir perdão: mentirosos não se expressam como esta menina.

A vidente replicou: “Visto que é um pecador, vou imitar-lhe o sorriso da Virgem Santa”. Era como se dissesse: o melhor argumento contra o seu ateísmo é o sorriso de Nossa Senhora.

Eis a impressionante sequência do ocorrido contado pelo próprio conde: “A criança ergueu-se muito lentamente, juntou as mãos e esboçou um sorriso celeste como eu nunca vira em lábios mortais. A sua figura resplandeceu-se de um reflexo perturbador. Sorria ainda com os olhos voltados para o céu. Eu permanecia imóvel diante dela, persuadido de ter visto o sorriso da Virgem no rosto da vidente”.

O ímpio pretensioso dobrou-se diante da delicada menina. Após essa entrevista, o conde dirigiu-se à gruta das aparições e se converteu. Tinha perdido esposa e dois filhos e, por isso, abandonado a fé. Dali em diante passou a viver com o sorriso da Mãe de Deus na memória.

Quando todos os argumentos racionais contra o ateu falham, resta a ação de Nossa Senhora por meio de seus filhos pequenos, humildes e desconsiderados diante do mundo. Eles, na verdade, são grandes combatentes, gigantes da graça.

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Notas:

1. Cfr. TROCHU, Francis. Bernadette Soubirous, ed. Cultor de Livros, São Paulo, 2021, 2ª edição, pp. 297 e 298.

2. Cfr. https://catholicherald.co.uk/the-atheist-orthodoxy-that-drove-me-to-faith/

3. Cfr.https://youtu.be/ShYjmeNEnkY?t=1696