Minhas aventuras em Damão, na Índia

A Índia tem uma população de mais de um bilhão e trezentas mil pessoas. Nela havendo resquícios do regime de castas, a população é muito heterogênea, indo dos descendentes dos Marajás e elite dirigente e administrativa, ao povinho muito miúdo e às vezes primitivo em seu modo de ser. Isso se verá muito no que vem abaixo narrado com tintas talvez um pouco forte, mas verdadeiras, pois o autor não está descrevendo o que viu no resto da Índia, que tem muitas coisas admiráveis e dignas de nota.

  • Plinio Maria Solimeo

Estando eu na Índia no fim de 1996, quis visitar a antiga possessão portuguesa de Damão a umas quatro horas e meia de Bombaim.

Para facilitar minha locomoção num país estrangeiro, fui acompanhado por um rapaz indiano, Newman, de Bombaim, que se prontificou a ir comigo nessa viagem. Assim fomos num domingo de manhã.

Quando chegamos ao Victoria Terminal, em Bombaim, vimos que a plataforma correspondente já estava apinhada de gente. Pois não nos déramos conta de que nesse dia, na Índia, se celebrava o Dia dos Pais. Assim, ficamos atrás de uma longa fileira.

Mal o trem apontou na plataforma, foi um salve-se quem puder! Uma multidão começou a correr aos berros, tentando nele agarrar ainda em movimento, para pegar lugar. Acontece que os carregadores da estação, reconhecíveis pela camisa vermelha e um bibi branco, como “donos da plataforma” e com a prática que têm, conseguiram entrar antes e marcar quase todos os lugares disponíveis.

Eu pedi ao Newman que, sendo bem mais moço e como bom indiano, enfrentasse a turba naquela lei da selva, e tentasse marcar dois lugares. Mas, levado pela enxurrada, ele mal conseguiu se manter vivo em meio à sarabanda, sendo sugado para dentro do trem.

Dez minutos depois, quando a efervescência tinha baixado, me acerquei do trem e procurei ver o Newman naquela massa informe de braços, cabeças, malas e toda espécie de bagagem.

Finalmente ele, encontrando uma brecha para se virar, me pediu que entrasse de qualquer maneira. Eu me recusei peremptoriamente. Aí um dos “corretores” dos carregadores, vendo que se tratava de um estrangeiro, veio me oferecer um lugar por cinquenta rúpias, sendo que tínhamos pago pelas passagens só 25! Mas, ante tão negra perspectiva, estando já o Newman dentro do trem, e sendo talvez aquela a última oportunidade que eu teria para conhecer Damão, resolvi pagar.

O carregador me mostrou então um assento junto à janela no qual estava sentado um deles marcando o lugar, e me pediu o pagamento. Eu me recusei a pagar antes de entrar e me sentar, porque sabia que tudo poderia acontecer antes que eu chegasse ao lugar. Pois foi o que aconteceu.

Mal cheguei junto ao banco e o carregador que o marcava se levantou, uma senhora obesa que estava ao lado imediatamente nele se sentou, definitivamente, irremediavelmente, mostrando que nada a moveria do lugar. Embora os carregadores reclamassem, ela nem lhes prestou atenção.

Desse modo, como eu já havia passado por um verdadeiro corredor polonês para conseguir chegar até ali, resolvi ficar apesar de não acreditar na perspectiva otimista lançada pelo Newman de que, nas primeiras paradas, muita gente desceria.

Conquistei um terreno não muito grande para os pés, pois estava ao lado de um banco único na lateral cujo felizardo possuidor tinha conseguido um lugar não só para si, mas para uma sacola e um saco do tamanho de um saco de arroz, sobre o qual um oportunista, sem nenhuma cerimônia, logo se sentou. Em minha frente tinha a senhora, que cedeu metade de seu assento já pequeno ao marido, também volumoso.

Entretanto, a situação ia piorando pois, para cada 5 pessoas que desciam numa estação, entravam mais 15.

Como não havia espaço para nada, uma mulher que segurava numa das mãos uma sacola e com a outra amparava a mãe velhinha, não tendo onde se apoiar, não teve dúvida em agarrar-se ao meu braço. Deu um sorriso amarelo como que pedindo licença para continuar com o fato já consumado, ao que respondi com outro mais amarelo ainda.

Evidentemente à medida que o tempo passava, surgiam os problemas, pois havia muitas crianças no trem, e estas queriam usar o banheiro. Os pais as tinham que levantar acima de suas cabeças para não serem esmagadas, e tentar furar o bloqueio. A dificuldade era que o banheiro ficava junto a uma entrada na qual havia um bloco compacto de gente e de malas.

Resumindo: finalmente após 4 h e meia escorando-me ora num pé, ora noutro, chegamos a Vapi, no Gujarat, de onde deveríamos ir para Damão.

Pedi então ao Newman que fosse imediatamente comprar para a volta primeira classe ou o que existisse porque eu não sujeitaria outra vez a uma viagem como a da vinda. Muito otimista, como sempre, ele voltou com um sorriso confortador: “Para a volta não haverá nenhum problema. Pois eles têm um trem ida-e-volta partindo daqui para Bombaim, de modo que o pegaríamos em seu ponto de partida sem problemas”. Eu não estava muito convencido, mas como ele é da terra, resolvi confiar.

Entretanto, as agruras continuavam. O ponto do ônibus que liga Vapi a Damão, estava abarrotado. Mas chegou, começou a correr gente de todos os cantos possíveis e imagináveis aos gritos com o característico empurra-empurra, em que participavam homens, mulheres e crianças.

Eu me afastei e pedi ao Newman que enfrentasse esse ringue. Ele finalmente conseguiu entrar, mas quando chegou a um lugar vazio, alguém jogou da janela duas revistas para marcar o lugar. O Newman não teve dúvidas: pôs as revistas de lado e sentou-se assegurando o outro lugar para mim.

Consegui finalmente entrar depois de ter o chapéu arrancado da cabeça, os óculos do nariz e a máquina fotográfica do ombro enquanto alguém me segurava pela jaqueta. Mas, num ato de energia consegui me desvencilhar e entrar sentando-me ofegante. Aí veio o “dono” do lugar reclamá-lo. Era um muçulmano jovem, dos observantes, barba e bigode característicos, vestido todo de branco usando um gorrinho de crochê.

Começou então uma disputa em altas vezes em hindi, língua que o Newman também domina, a que eu assistia como se não tivesse nada a ver com a coisa, mas com ar de quem estava determinado a não me deixar mover do lugar. Após uns 10 minutos de discussão o mouro viu que nada conseguiria e resolveu ficar calado de pé ao lado do nosso banco.

No Estado do Gujarat, onde está encaixado Damão, predomina a religião Jain, dos mais rígidos em matéria de bebidas e comidas. Pois os seguidores dessa seita são não só vegetarianos, mas não bebem leite porque dizem que, quando se ordenham as vacas, se acaba matando inúmeros corpúsculos que praticamente não se vê a olho nu. Por isso não comem também tubérculos como batatas e amendoins porque dizem que, quando se os arranca da terra, violentam vários pequenos corpúsculos…

A ex-colônia portuguesa de Damão fica no Golfo de Cambaia, e se divide em “Damão Pequeno” e “Damão Grande”. Tanto num quanto no outro, há um forte. O de Damão Pequeno fica às margens do Rio Damanganga. É uma construção imponente, dentro dele há uma igreja construída por volta de 1600, ainda ativa. Em frente ao de Damão Grande há um segundo forte, o de São Lourenço, construído no século XII. Dele restam hoje apenas as muralhas, e dentro delas uma igreja colonial onde há serviços para católicos do rito latino e, duas vezes por mês, para os do rito siro-malabar.

As ruas de Damão, como as de todas as partes da Índia regurgitavam de gente. As mulheres ali usam o sári de um modo diferente do das do sul. Em vez de enrolá-lo ao corpo e fazer com que a extremidade mais bonita, depois de presa ao ombro esquerdo, desça para as costas em cascata, ali elas, ao contrário, a passam por detrás e as fazem cair para a frente do corpo, prendendo-a bem aberta lateralmente no sári. Isso produz um bem bonito efeito, pois essa é a parte mais bela dessa veste, que fica assim bem em evidência.

Como era de se esperar, para a volta, no ponto de ônibus havia uma multidão. E logo que ele chegou, começou o empurra-empurra. Desta vez o Newman nada conseguiu, pois é citadino e não pode concorrer com os habitantes locais, já habituados ao jogo. Quando vi que o Newman conseguiu entrar, tinha que segui-lo sob pena de ficar para traz. Espremido, recebendo cotoveladas no rosto, no estômago, sendo puxado para trás e para a frente, consegui ficar de pé no estribo do ônibus. O cobrador então me puxou para dentro, e fechou a porta, deixando parte da multidão descansar para um novo round quando chegar outro ônibus.

Quando chegamos à ferroviária vimos na plataforma uma grande multidão, e o Newman começou a ficar inseguro. Quando o trem chegou mal conseguimos entrar. Na estação seguinte encheu muito mais, e assim em todas as sucessivas, de maneira que a situação foi ficando pior do que a da vinda.

Após 3 horas de viagem de pé, curvado, imobilizado, o Newman perguntou a um senhor que dividia o banco com um filho pequeno se ele ia descer na estação seguinte. Ele ia fazê-lo só na segunda, mas percebendo que o lugar era para mim, se levantou oferecendo-me compartilhar o lugar com seu filho. Nem bem ele se levantou, um tipo de uns 40 anos que vinha soltando seu peso sobre meu ombro apesar de meus contínuos rechaços, com a maior sem-cerimônia disse que queria o lugar. Felizmente o primeiro continuava em frente ao banco e o rechaçou dizendo que estava cedendo o lugar para o “estrangeiro”, e não para ele.

A partir da estação seguinte o trem começou a esvaziar. E assim chegamos a Bombaim às 22 h, moídos, sedentos, famintos, tendo o vagão todo para nós.

Como despedida da Índia, essa viagem não poderia ter sido mais ilustrativa…