RIEURS

  • Péricles Capanema

Associações de ideias. Horas atrás me encantei com escritos de Carlos de Laet (1847-1927). Brilho, verve e pureza de estilo serviam à argumentação lógica. Foi polemista temido, derrubava opositores pelo metralhar harmonioso das razões, temperadas pelo remoque satírico, zombaria e troça. Contudo, sempre manteve a educação, a linguagem decorosa, o tom de polemista duro, mas fidalgo. Pelo que sei, e sei pouco, todos temeram se medir com ele na arena pública. Um só, Constâncio Alves (1862-1933), enfrentou-o galhardamente em polêmica rápida e divertida. Carlos de Laet se sabia dotado para a luta das ideias, era seu campo, e gostava do debate pelos jornais. Mesmo os que não concordavam com suas posições — não deviam ser exíguos, era católico e monarquista de estandarte levantado —, procuravam lê-lo para se entreter com o português superior, a riqueza e precisão do vocabulário, a elegância na frase simples, o dito jocoso na hora certa. Enfim, tinha muito mais leitores que aderentes ou mesmo simpatizantes. No artigo que escreveu a propósito do falecimento de Machado de Assis (1839-1908), conta que, certa vez, disse-lhe brincando que ainda o obrigaria a polemizar com ele. Ao que o Bruxo do Cosme Velho redarguiu: “Não faça tal, que os partidos não seriam iguais: isto para você seria uma festa, uma missa cantada na sua capela, e para mim uma aflição”. Carlos de Laet, além do público dos que concordavam com suas posições, atraía os rieurs. Outro que atraiu rieurs, mas bem depois, foi Nelson Rodrigues. O que são os rieurs, para os poucos que ainda não estão familiarizados com a palavra? Que importância têm?

Relevância funda das pessoas superficiais. Rieurs, os que procuram rir a todo propósito, os que buscam sobretudo a diversão, mesmo em ocasiões sérias. É comum, gostam de fazer e/ou de escutar gracinhas. É o assunto de que vou tratar hoje. Melhor, o foco será outro, a influência de pessoas superficiais, tomadas pelo vício de procurar se divertir a qualquer preço. Será a maioria? Sei não. Esse pessoal faz parte do país que conta? Em que proporção? Ou o país que conta tem escassos rieurs em seu meio? Convicção minha, são multidões; podem determinar destinos de povos. Não vejo palavra em português que exprima com precisão o significado da palavra francesa rieurs. Talvez gozadores, folgazões, patuscos, brejeiros. Vou me fixar em um sentido de rieur: as pessoas que buscam rir a todo propósito, os intemperantes do riso.

Ânsia pelo favor do público. Sempre foi ambição — ainda é forte, não desaparecerá — de escritores, jornalistas, dramaturgos, políticos, enfim, de todos os praticantes de profissões semelhantes, ter os rieurs de seu lado, apoiando-os em suas posições. Voltaire (1694-1778) teve a respeito observação que expressa opinião generalizada no meio: “Se não pudermos ter o areópago (pessoas de destaque) de nosso lado, é preciso pelo menos ter os rieurs. Patuscos importam. La Fontaine (1621-1695) caminha no rumo contrário: “Procura-se sempre ter os rieurs de nosso lado; eu os evito”. Patuscos não importam. Malebranche (1638-1715) coloca distância: “O favor do público e os rieurs, como se diz usualmente, raramente estão do lado da verdade”. O que quer dizer, embora raro, por vezes os rieurs tomam a posição correta. De qualquer maneira, mesmo os autores de pena grave, em geral temem se antipatizar com os rieurs. No fundo do quadro está a busca incessante de público, a saber, aumento de leitores, espectadores, votantes, consumidores.

Abrir a cortina. Não conheço estudo sobre a importância dos rieurs. Fui levado a pensar mais detidamente sobre o assunto ao ler de novo Carlos de Laet e irrigar, uma vez mais, a convicção de que ele foi ímpar em atrair rieurs. A propósito, as correntes católicas, conservadoras, da direita liberal, desde o Império, foram muitas vezes servidas por publicistas com grande capacidade de colocar os rieurs do lado deles. Hoje, não mais. Existem ainda comunicadores que procuram atrair atenção pelo insulto, palavrão e linguagem chula. Atraem, é verdade, mas só em proporção minguada no Brasil que conta, em especial no Brasil que conta para o bem. Selecionam pelo avesso. Aproximam setores que se deleitam no cafajeste, que intoxica e acaba matando quem o recebe.

O peso dos rieurs. Em duas palavras, minha convicção, convém ter os rieurs do nosso lado. Mas não é decisivo, via de regra. O mais importante, e busco aqui ainda o exemplo de Carlos de Laet, seria expandir de início sua influência no campo que lhe era próprio, no caso, os monarquistas e os católicos. Representaria construção sólida. Ir atrás de números nunca foi o decisivo. Procurar a qualidade, mesmo que potencial, trabalhar em sua formação, articulá-la, é o que realmente importa para quem procura o bem de sua organização, do país etc. São ganhos perenes.

Apoios efêmeros. O próprio Carlos de Laet no “O País” de 10-5-1908 relata o efêmero do apoio que não tem estacas na rocha. Não se refere, especificamente, ao público rieur, mas com ele tem muitas relações. São igualmente apoios de superfície, em boa parte emocionais. Trata de duas situações vividas pela Princesa Isabel, presenciadas de perto por ele, observador interessado, separam-nas menos de dois anos, 13 de maio de 1888 e 15 denovembro de 1889:

“Foi invadido o recinto e vitoriado, por um grupo de abolicionistas, o Senador Dantas, que estava radioso lá no seu posto, na bancada à esquerda da mesa, dando e recebendo abraços infindáveis. Ainda não esqueci o aborrecido desgosto que tive de curtir ouvindo o fragor do turbilhão humano que se agitava na praça, as aclamações incessantes, as notas estridentes das charangas, os foguetes, pontuação indispensável de todo o entusiasmo nacional ao passo que, retido pelas minhas funções, permanecia eu preso no velho casario da Rua do Areal, a consertar as frases dos excelentíssimos oradores. Quando logrei sair, estávamos persuadidos de que já se aplacara o movimento popular; mas quanto nos enganávamos! Era dificílimo romper a turba na Rua do Ouvidor. Para entrarmos no ‘Jornal do Comércio’, preciso nos foi, a mim e ao meu amigo, solicitar ingresso pela travessa lateral, aonde iam dar as oficinas. De muitas janelas discursavam oradores, alguns fardados, do Exército, e com figuras do mais levantado entusiasmo para com a ‘mulher sublime que num lance de pena quebrantara grilhões três vezes seculares’. Abraçavam-se transeuntes que mal se conheciam. Nem uma desordem, nem uma disputa colérica! Uma inundação de bondade alagava todos os corações. Havia lágrimas em todos os olhos. E era realmente o povo, o verdadeiro povo, quem a 13 de maio de 1888 estuava nas ruas, confraternizava nos hotéis, nos botequins, nos restaurantes, onde não havia um lugar vago, sendo preciso esperar cerca de uma hora, para a mais incompleta refeição. O povo que a 13 de maio atapetava de corações o caminho por onde ao trono ia passar Isabel, a Redentora, indiferente lhe volveu costas, quando um ano depois a viu abatida, caluniada, proscrita e punida, até na prole, pelo grande crime da Abolição. A mulher excepcional e abençoada a quem coube a dúplice glória de vibrar dois máximos golpes na escravidão, foi desamparada pelos seus colaboradores, pelos redimidos, e sozinha se achou acometida pelos rancores dos que na Monarquia, vingaram os prejuízos da fortuna”.