Uma glória da Igreja na História do Brasil – II

Com este artigo concluímos a série de publicações em homenagem à Princesa Imperial, no centenário de seu falecimento.

  • Plinio Corrêa de Oliveira

Legionário, 4 de agosto de 1946

A popularidade da Princesa Isabel sofreu, entretanto, rudes entrechoques. A propaganda republicana jamais desarmou contra ela. E, ao mesmo tempo, Dona Isabel teve de enfrentar dois rudes adversários: o anticlericalismo e, o que é pior de tudo, o moderantismo “católico”.

O Brasil vivia, naquele tempo, em plena modorra religiosa. Poucos eram os anticatólicos declarados. Mas o anticlericalismo era aqui vivaz, agressivo, intolerante. Dos que se diziam católicos, muitos sustentavam em teologia, filosofia, direito, moral, as opiniões mais abstrusas, arrogando-se não raras vezes a liberdade de discutir as próprias orientações doutrinárias ou disciplinares da Igreja.

Em muitos lares onde se rezava em comum antes das refeições, o sacerdote era mal visto e mal recebido. Em algumas camadas sociais, ninguém frequentava os sacramentos. E todo o mundo se dizia católico. Até [anticatólicos] pertenciam às confrarias religiosas!

O ódio velado dos “católicos” moderados foi
a grande cruz de Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira. 

Diante de situação tão catastrófica, e aparentemente tão homogeneamente católica, havia duas tendências. Uns queriam contemporizar. Outros queriam lutar. Destes últimos foi Dom Vital. Contra ele se levantou a sanha do anticlericalismo em peso. Sabemos qual foi seu martírio. Sabemos, sobretudo, que em sua coroa nenhum espinho foi tão doloroso do que a hostilidade mais ou menos disfarçada, mas imensamente rancorosa e peçonhenta, do moderantismo “católico”. O ódio velado dos “católicos” moderados foi a grande cruz de Dom Vital.

A Princesa Imperial sempre alarmou o anticlericalismo indígena. Católica, não de fancaria ou de fachada, mas de um catolicismo férvido e autêntico, a Princesa prometia ser um obstáculo insuperável aos empreendimentos dos inimigos da Fé.

Já têm sido publicadas numerosas circulares [anticatólicas] recomendando propaganda contra ela, para evitar sua ascensão ao trono. O ponto capital deste rancor estava no procedimento da Princesa durante a chamada “questão religiosa”. Sem se afastar da linha de respeito e obediência que devia ao Imperador, Dona Isabel deixou transparecer claramente sua reprovação pela prisão dos Bispos.

Todo o mundo que se levantou naquela ocasião contra Dom Vital aproveitou a oportunidade para injuriar a Princesa. Dona Isabel não se abalou. Bebeu resolutamente o mesmo fel de amargura de que transbordava o cálice de Dom Vital. Dizem que a queda da Monarquia se deveu à libertação dos escravos.

O acontecimento teve ainda outras causas profundas. Mas a razão mais ativa foi, sem dúvida, o ódio [anticatólico] contra a Princesa. Se houvesse alguma esperança de que, sob seu reinado, a opressão da Igreja pelo Estado regalista continuasse, é bem possível que o trono não houvesse caído.

A Princesa Isabel, em Paris, na década de 1890

No que diz respeito à libertação, ninguém ignora que a ação da Princesa não foi apenas protocolar. Ela preparou com todas as suas forças o acontecimento, embora sua situação constitucional lhe permitisse uma liberdade de movimentos apenas relativa. Este ponto já está tão esclarecido, que não merece maior insistência.

É interessante notar, entretanto, os paradoxos de que está cheia a vida da Princesa. Aqui vem mais um. Seu trono foi derrubado não só por positivistas e

[anticatólicos]

, como também por grandes proprietários agrícolas, que são os sustentáculos naturais do trono em todas as monarquias.

No momento, Dona Isabel se beneficiou de um surto de popularidade formidável. Ela mesma, entretanto, não confiava nessas manifestações que tinham muito de sincero, mas algum tanto também de demagógico. Quando veio a República, ela não se surpreendeu. E caminhou para o exílio sem repudiar as duas grandes causas a que se sacrificara: a Igreja e a libertação [dos escravos].

No exílio, Dona Isabel formou uma estirpe de autênticos brasileiros. No castelo d’Eu, onde residia, os hóspedes brasileiros eram sempre os preferidos. As reminiscências do Brasil se encontravam a cada passo. Toda uma galeria do castelo está ocupada por um verdadeiro museu de raridades relacionadas com nossos índios. O arquivo da família imperial, ali instalado, é um dos mais ricos repositórios de documentos brasileiros, e está primorosamente organizado. Tudo ali fala de saudades, intensas saudades do Brasil.

Os visitantes que vão a Paray-le-Monial, Santuário mundial do Sagrado Coração de Jesus, se espantam em ver como, nos ex-votos de todos os países do mundo, sobressaem os do Brasil. Foi a Princesa Imperial que providenciou estas oferendas. Tolhida de bem fazer a sua Pátria, por outros modos seu delicado coração encontrou este meio de servir ainda o Brasil.

E os católicos de todos os credos políticos hão de reconhecer, comovidos, que as preces da grande e piedosa Princesa hão de ter sido bem recebidas pelo Sagrado Coração de Jesus, em favor da Terra de Santa Cruz.