
- Plinio Corrêa de Oliveira
No tempo antigo do bairro Campos Elíseos, onde morei na capital paulista, os jardins eram muito bonitos, com flores ornamentais. As casas eram ‘sossegadonas’, distintas e elegantes.

Quando eu era mocinho, gostava de dar um giro a pé pelas ruas (nas quais meus familiares habitualmente não transitavam) para flanar sozinho. Gostava de passar diante das casas e observar seus jardins, as flores particularmente bonitas, mais adiante ouvir a voz de alguma mulher cantando desafinada, com a janela aberta, eu a percebia costurando.
Observava um caniche que passava, depois um lulu da Pomerânia, mais adiante um cachorro ‘de rua’. Às vezes aparecia um filhote mestiço (certamente uma cadela tinha escapado para a rua e encontrado um cachorro sem raça, daí o nascimento desse mestiço) com a saúde robusta, por um lado, e por outro um pouquinho de finura da cadela. Andava luzidio e exibicionista como um burguesinho, abanando o rabo e latindo para se fazer ver.

Mais adiante eu encontrava uma padaria de portugueses, exalando o cheiro bom de pão quente saindo do forno, convidando-me a entrar e comprar.
Naqueles tempos as coisas tinham certo molejo, havia tempo para tudo, ninguém fazia as coisas depressa. Sabia-se que catástrofes podem acontecer, mas nada inopinadamente, e todo mundo levava vida tranquila.

Inúmeras vezes, pessoas de minha família se queixavam desse ou daquele incômodo (em geral eram pequenos incômodos), e eles iam ao médico no centro da cidade, que era ao mesmo tempo lugar de negócios e de passeios. Havia cinemas, confeitarias, uma porção de atrações dessas, de boa qualidade, e essa ida ao médico se transformava também num passeio.
Era comum uma senhora ir ao médico levando dois ou três filhos ou sobrinhos, para depois tomarem chá na casa Mappin, por exemplo. No centro da cidade a pessoa podia ir e se distrair. Como seria isso hoje?…
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Excertos de comentários feitos pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 8 e 14 de setembro de 1991. Esta transcrição adaptada não passou pela revisão do autor.