São Simeão Estilita, Confessor

Ícone de São Simeão Estilita – Autor desconhecido. Igreja da Dormição de Nossa Senhora, Alepo (Síria)

Brilhando em seus santos dos Padres da Igreja aos Doutores, teólogos, canonistas, reis, príncipes, fundadores, donas de casa, pastores , a Santa Igreja suscitou vocações em todos os campos. A mais surpreendente delas, porém, é a de São Simão Estilita, que passou 37 anos sobre uma coluna no deserto, santificando-se e santificando o próximo. A Santa Igreja celebra sua festa litúrgica no dia 5 de janeiro.

  • Plinio Maria Solimeo

“Estilita” vem de “stilos”, coluna, em grego. A vida de São Simeão é tão fora de todos os padrões de santidade que, se não tivéssemos fontes seguras, seria difícil concebê-la. A primeira biografia que temos dele foi escrita durante a sua vida por Teodoreto, bispo de Cyrrus, que relata os acontecimentos dos quais diz ter sido testemunha ocular. Há também outra biografia contemporânea, de um discípulo do santo chamado Antonius, da qual se tem poucos dados. Surgiram depois outras biografias, baseadas sobretudo nessas duas primeiras.

Por mais extraordinária que seja a vida de São Simeão Estilita, ela se baseia assim em fatos de primeira mão, muito confiáveis, que a tiram do domínio das fábulas. De modo que até críticos modernos não se aventuram a discuti-los.

Primeiros anos

Simeão — dito o Velho, para o distinguir de seus discípulos e imitadores que o seguiram — nasceu por volta do ano de 390 em Sisã, no norte da Síria.

De acordo com Teodoreto, Simeão foi pastor em sua infância. Aos 13 anos ouviu um dia as palavras do Evangelho: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados; bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5, 5). Apesar de sua pouca idade, aquilo o impressionou tanto que, ao cumprir 16 anos, abandonou o cuidado do rebanho paterno para entrar num mosteiro, onde se entregou a uma austeridade extrema que pareceu extravagante a todos.

Por exemplo, numa ocasião ele iniciou um severo regime de jejum durante a Quaresma. Para atenuá-lo, seu Superior deixou em sua cela um pouco de água e pães. Alguns dias depois Simeão foi encontrado inconsciente, com a água e os pães intocados. Viram então que ele usava também um áspero cilício de folhas de palmeira para mortificar a carne.

Isso levou seus superiores a instá-lo a deixar o mosteiro, alegando que seus esforços ascéticos excessivos eram incompatíveis com o estilo da disciplina conventual. Ele se refugiou então em uma cabana no deserto, na qual viveu recluso durante três anos, a fim imitar com mais precisão os sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nesse isolamento passou toda uma Quaresma praticamente sem comer nem beber, aplicando-se as mais severas disciplinas.

Quando terminou seus três anos de prisão voluntária, ele procurou uma solidão rochosa no deserto, onde escolheu viver como eremita.

Acontece que a verdadeira santidade atrai. Embora se encontrasse a gosto nesse novo ambiente, afim ao seu temperamento, logo foi descoberto e invadido por peregrinos que vinham lhe pedir conselhos e orações. Isso o determinou a procurar um novo meio de vida.

Ruínas da Igreja de São Simeão Estilita, com os restos da coluna de Simeão ao centro (Qalaat Semaan, Síria

Vida nas colunas

Após uma busca na área circundante, nosso santo descobriu, entre algumas ruínas antigas, um pilar de uns quatro metros de altura que havia resistido. Teve então a inspiração de criar uma nova forma de piedade pessoal: construiu no topo desse pilar uma pequena plataforma — dotada de uma escada para que lhe chegassem os poucos alimentos indispensáveis à sua sobrevivência e cercada por um corrimão para ele não cair —, determinado a ficar ali até o fim de seus dias.

Exposto à chuva, à neve e ao sol do verão, o passar dos dias e os exercícios instruíram-no a se manter nessa situação sem medo ou vertigem, procurando assumir sucessivamente as diferentes posturas de devoção. Assim, às vezes São Simeão rezava em pé com os braços em cruz, às vezes ajoelhado ou sentado. Isso lhe causou uma úlcera que o molestava, mas não impedia seu colóquio contínuo com o Céu.

Julgando que aquele pilar não era suficientemente alto para o seu isolamento, foi aos poucos substituindo-o por outros, até chegar a um com quase 28 metros de altura, em torno do qual se ergueu um muro duplo, a fim de evitar que a multidão se aproximasse muito e perturbasse o seu recolhimento.

As mulheres não eram permitidas além do muro, nem sequer sua própria mãe, a quem Simeão dizia: “Se formos dignos, ver-nos-emos na vida vindoura”. A digna senhora se submeteu a isso, permanecendo na área e abraçando a vida monástica de silêncio e oração. Quando morreu, Simeão pediu que lhe trouxessem o seu caixão a fim de se despedir dela.

Apóstolo e árbitro

O número de peregrinos foi aumentando, passaram a lhe trazer seus doentes para serem curados e a lhe pedir os mais diversos conselhos, apresentar-lhe suas queixas, ou apenas terem a dita de guardar alguma lembrança do homem santo.

É preciso dizer que muito do ministério público de Simeão, como o de outros ascetas sírios, deve ser visto no contexto do Oriente Romano. Pois devido à retirada dos ricos proprietários de terras para as grandes cidades, homens santos como Simeão passaram a agir como patronos e árbitros imparciais, necessários nas disputas entre camponeses, e mesmo nos litígios dentro das cidades menores.

Assim, apesar da sua estranha reclusão, Simeão não se retirou do mundo. Pois começou a dar aos peregrinos — que subiam a escada para chegar à sua presença —, mais abertamente do que nunca, conselhos individuais, ensinando-lhes as verdades da fé e o amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, à Santíssima Virgem Maria e à Santa Igreja.

Em seus sermões, ele fustigava também contra os dois vícios mais frequentes na época, o do mundanismo e o da usura, recomendando, para combatê-los, as virtudes da temperança e da compaixão.

Provações

Seu gênero de vida era considerado tão extraordinário pelos medíocres, que estes passaram a lhe fazer muitas perseguições. Falavam com desprezo “daquela austeridade singular”, qualificavam-no de impostor, que levava aquele gênero de vida por vaidade e soberba, para chamar a atenção sobre si.

Ao ouvirem dizer que Simeão tinha escolhido uma nova e estranha forma de ascetismo, os anacoretas que viviam no deserto do Egito decidiram ir até lá para examinar o caso. Quiseram então testá-lo, para determinar se suas façanhas extremas eram fundadas na humildade ou no orgulho.

Como o santo dependia deles, decidiram ordenar-lhe, sob obediência, que descesse do pilar. Se ele desobedecesse, ficaria provado que o orgulho era o motor de sua estranha vida, e então arrastá-lo-iam à força para o chão. Mas se ele estivesse disposto a se submeter, deixá-lo-iam onde estava. São Simeão deve ter descido da coluna, pois é dito que ele demonstrou total obediência e humildade à ordem recebida, e os monges lhe disseram que poderia continuar a levar aquele singular estilo de vida.

Fama chega à Corte

O inusitado da vida de Simeão causou tal impressão em seus contemporâneos, que sua fama se expandiu por todo o Império Bizantino e até pela Europa. Assim, além de atrair multidões de plebeus, sua piedade acabou por chamar a atenção dos escalões superiores do poder espiritual e temporal. Pelo que o imperador Teodósio e sua esposa Eudóxia muito o respeitavam e ouviam seus conselhos, e o imperador Leão prestava respeitosa atenção a uma carta que o santo lhe enviara em favor do Concílio de Calcedônia.

Certa vez em que o santo adoeceu gravemente, o Imperador Teodósio enviou três bispos para que o instassem a descer da coluna e consultar os médicos. Mas Simeão preferiu deixar sua cura nas mãos de Deus e em pouco tempo sarou.

O que muito favoreceu o conhecimento internacional de sua vida singular foi o enorme número de pinturas representando-o pelo mundo afora.

Embora fosse analfabeto, Simeão manteve extensa correspondência através de um de seus discípulos, a quem em geral eram dirigidas, muitas das quais ainda existem. Uma delas era para Santa Genoveva, a futura padroeira de Paris.

Morte e glorificação

Após peregrinar 37 anos em suas colunas, São Simeão morreu numa sexta-feira, 2 de setembro de 459. Seus discípulos sentiram então um suave perfume que, segundo seus primeiros biógrafos, “nem as ervas de eleição, nem as fragrâncias doces do mundo são comparáveis a essa fragrância”.

Simão Estilita foi homenageado com um funeral esplêndido, realizado pelo Patriarca de Antioquia, Martyrios, e enterrado não muito longe de seu amado pilar. Suas relíquias foram divididas entre as catedrais de Antioquia e Constantinopla. Sua festividade é celebrada no dia 5 de dezembro.

A forma espetacular e sem precedentes da piedade de São Simeão inspirou muitos imitadores, e já no século seguinte à sua morte os estilitas eram uma visão comum em todo o Levante Bizantino.


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Fontes: