Privilégios concedidos pela Santíssima Virgem

Foto: Frederico Viotti

Nossa Senhora das legítimas e harmônicas desigualdades é Nossa Senhora dos privilégios. Devemos ser anti-igualitários até no que diz respeito à vida espiritual. Falar de privilégio é falar de desigualdade. Logo após o relato de um milagre ocorrido em 1224 em Alenquer (Portugal), transcrevem trechos de uma conferência, em 7-1-1977, de Plinio Corrêa de Oliveira.

“No ano de 1224 deu-se no convento dos franciscanos de Alenquer, Portugal, um fato miraculoso que passou aos anais da Ordem. Houve nesse convento um noviço de vida inocente, ao qual o superior ordenou certo dia, em penitência de leve culpa, que não se afastasse do altar de Nossa Senhora, na sala do capítulo, enquanto Ela mesma não lhe revelasse qual oração, dentre as que ele estava rezando, era a mais aceita das que Lhe eram dirigidas. Ele o fez para colocar à prova a humildade e obediência do noviço, ou então movido por superior inspiração, para que ficasse notório aos devotos o efeito que se conseguiu.

“O santo noviço perseverou de joelhos todo o dia. Quando já era alta noite, do profundo da alma prorrompeu nestas palavras, com grande afeto, devoção e lágrimas: ‘Ó Virgem Santíssima, Mãe de piedade, humildemente vos rogo que manifesteis a este vosso servo o que meu superior me mandou perguntar-Vos, por obediência. Mãe Santa, daqui não hei de me afastar sem lhe levar a resposta’.

Claustro do Convento de São Francisco de Alenquer

“Ó caso maravilhoso! Inclinada, a Rainha dos Anjos atendeu a seus rogos; do altar em que estava, respondeu-lhe: ‘Vai, amantíssimo filho, e afirma que o hino Ó Gloriosa Domina, que a Igreja me canta, de todas as orações é a que mais me é aceita. E para provar o que te digo, este meu filho Jesus, que até agora tive no meu braço direito, eu o passo para o esquerdo. Vai confiante, pois vendo o mundo tão extraordinária maravilha, a tudo dará crédito. Convida o superior e os demais religiosos para vir visitar-Me’.

“O santo noviço, obediente e consolado com tão grande favor, depois de agradecer a Nossa Senhora foi referir tudo ao superior. Alvoroçado como os outros religiosos, foram todos à sala do capítulo. Vendo tão manifesto milagre, creram o que o noviço afirmava da oração O Gloriosa Domina. Daquele dia em diante cresceu nos fiéis a devoção a Nossa Senhora, que até hoje persevera. Conserva-se também o Menino mudado, sendo evidentíssimos, como testemunho da verdade desse acontecimento, os sinais que ficaram no lugar em que tinha estado o Menino.

“Para comemorar esse prodígio, todos os sábados, depois de Completas, tocado o sino grande, vai a comunidade em procissão ao capítulo, com círios acesos. E com solenidade e devoção cantam o hino O Gloriosa Domina.

“Parece que foi desse fato que nasceu em Santo Antônio de Lisboa a grande devoção que tinha a esse hino. Valeu-se dele em suas maiores necessidades, como numa noite em que o demônio quis afogá-lo, furioso com o grande fruto que produziu na Itália a sua pregação. Com a oração desse hino, afugentou-o”.

Convento e Igreja de São Francisco em Alenquer. O terremoto de 1755 destruiu a antiga igreja gótica, ficando só o claustro e algumas poucas dependências anexas.

Todos podem imaginar um bom noviço de alma cândida, varonil, inocente, que se apresenta ao superior, e inclinando-se, diz: “Padre Mestre, eu cometi uma falta”. Cônscio de que toda falta é grave para os olhos de quem sabe ver bem, pediu um castigo. O superior, para prová-lo, aplicou-lhe o castigo acima mencionado.

E o noviço postou-se de joelhos diante da imagem — entre meio esperançoso e meio perturbado pela natureza do castigo — naturalmente levando na alma a pergunta que qualquer criatura humana nessa emergência tem que levar. Por mais que ele gostasse de rezar diante de Nossa Senhora, por mais que fosse objeto de manifestações de agrado d’Ela, não podia imaginar o que ia acontecer. Então ele rezou, rezou, rezou. Poderíamos imaginar o silêncio que se vai fazendo no convento, a noite que baixa, os ruídos caseiros que desaparecem, o rapaz sentindo-se sozinho, impassível diante da imagem.

Em determinado momento ele sente um auge de piedade e devoção, e faz a Ela o pedido: Eu estou aqui preso pela obediência. Vós sabeis o que é a obediência, eu não posso sair. Então eu Vos peço: Abri-me as portas para eu poder voltar à comunidade humana. Dizei Vós, ó minha Mãe, a palavra de auxílio e de misericórdia que possa me libertar. Indicai qual é a oração de que Vós mais gostais.

Certamente ele preparou longamente, pela oração, o pedido que fez. Ao final, provavelmente quando chegou a uma dessas situações críticas, em que ele não aguentava mais, colocou o pedido dele, sabendo bem que a hora crítica, a hora em que tudo parece não ter solução, é bem a hora em que as soluções surgem.

Qual não foi sua surpresa quando Nossa Senhora falou, e depois viu a imagem se movimentar, tomar amorosamente o Menino Jesus e mudá-lo de braço, em seguida dizer: Meu filho, eis aqui o sinal. Pode-se imaginar com que expressão de fisionomia a imagem, olhando para ele, disse aquelas palavras trasbordantes de amor.

Como contraste, pode-se imaginar o terrível olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo para Judas! Quão triste foi o olhar d´Ele para São Pedro! Quão inefável foi o olhar d’Ele para Nossa Senhora, quando agonizava no Calvário.

Mas no caso deste milagre, podemos imaginar o que seria o olhar cheio de proteção e afeto d’Ela, sorrindo diante da inocência daquele noviço, e falando com ele comprazida, como quem lhe dá uma graça espantosa, e como quem o escolhe como portador de um recado. Pode-se imaginar o timbre de voz da Virgem Santíssima e a graça que esse noviço recebeu naquele momento.

Tarde da noite, ele vai recolhido contar o milagre: Padre, Nossa Senhora comunicou-me que a canção que Ela prefere é ‘O Gloriosa Domina’. [vide quadro ao lado ou à p. XX] O padre superior manda chamar os outros irmãos, manda tocar o sino. A comunidade religiosa se reúne em fila, e vai cantando o hino O Gloriosa Domina até a sala do Capítulo, e aí encontra a prova: o Menino Jesus não estava mais do lado direito. A imagem é conhecida como Nossa Senhora do Capítulo. Vemos assim as mil coisas que Maria Santíssima faz para aqueles que A amam.

Lembro-me do tempo em que frequentávamos a Ordem Terceira do Carmo, e o coro cantava a plenos pulmões um hino a Nossa Senhora do Carmo, cujo estribilho é: “Oh Maria, aos carmelitas dai privilégios”.

A Ordem do Carmo tem o privilégio carmelitano do escapulário, ao qual está ligada a promessa sabatina: quem morrer usando o escapulário, no sábado seguinte sua alma sairá do Purgatório

A correlação entre o privilégio e o carmelita — e de modo mais geral entre o privilégio e a devoção à Santa Mãe de Deus — sempre me encantou muito, e me pareceu um elemento fundamental da devoção a Ela. Privilégio deriva do latim, privata lex (lei privada). Ou seja, a lei que é para um, ou para determinado grupo, mas não para outros. A Ordem do Carmo tem o privilégio carmelitano do escapulário, ao qual está ligada a promessa sabatina: quem morrer usando o escapulário, no sábado seguinte sua alma sairá do Purgatório.

Nossa Senhora, como Mãe que é, não trata os filhos de acordo com as regras gerais. Ela possui regras gerais, é evidente; mas sabe sempre, para todo e qualquer filho, abrir uma exceção e abrir um privilégio. Cada filho de Nossa Senhora, em função d’Ela, é um privilegiado por algum lado. Trata-se de compreender por que lado cada um é um privilegiado.

Na história do noviço franciscano de Alenquer, Ela abriu um privilégio para ele, para o convento e para toda a Ordem Franciscana: uma conclamação a cantar aquele hino, para se unirem mais especialmente a Ela. Para isso operou o milagre.

Cada um deve ter uma noção do privilégio que lhe corresponde, estudando as graças que o tocaram mais profundamente. Estudando o fio condutor dessas graças, percebe-se que elas têm um sentido. Assim se compreende o privilégio, pelo qual se escapa da regra geral. Maria Santíssima sabe ter, para cada pessoa, uma pena que Ela não teve com ninguém. É o privilégio individual. Assim Ela poderia ser invocada como Nossa Senhora dos Privilégios.

Devemos ser anti-igualitários até no que diz respeito à vida espiritual, e falar de privilégio é falar de desigualdade. Nossa Senhora das legítimas e harmônicas desigualdades é Nossa Senhora dos privilégios. Nossa Senhora dos privilégios é nossa Padroeira.

Vista da cidade portuguesa de Alenquer

Senhora gloriosa,

bem mais que o sol brilhais.

O Deus que vos criou

ao seio amamentais.

O que Eva destruiu,

no Filho recriais;

do Céu abris a porta

e os tristes abrigais.

Da luz brilhante porta,

sois pórtico do Rei.

Da Virgem veio a vida.

Remidos, bendizei!

Ao Pai e ao Espírito,

poder, louvor, vitória,

e ao Filho, que gerastes

e vos vestiu de glória. Amém.

(Hino composto por São Venanzio Fortunato (530-609), bispo de Poitiers (França).