São Teodoro Estudita

Abade e confessor, zeloso campeão da indissolubilidade do vínculo conjugal e da veneração das imagens. Foi o último representante da unidade e independência da Igreja no Oriente antes do cisma que a separou de Roma. Sua festividade é celebrada neste dia 11 de novembro.

  • Plinio Maria Solimeo

No Martirológio Romano Monástico encontramos registrado “em Constantinopla, no ano 826, o nascimento no céu de São Teodoro Estudita, abade, admirador da tradição patrística. Para ele, as ordens monásticas eram como que ‘os nervos da Igreja’. Fez do mosteiro bizantino de Studios uma oficina de sábios e santos mártires, vítimas da perseguição iconoclasta. Sofreu o exílio por três vezes por ter defendido a santidade do casamento cristão em face do adultério do Imperador Constantino VI, e apoiado o culto dos santos ícones”.

De família influente em Constantinopla

Teodoro nasceu em Constantinopla, então capital do Império Romano do Oriente, no ano de 759. Era o filho mais velho de Foteinos, importante funcionário da burocracia financeira do palácio. Sua mãe, Teoctisa, era oriunda de uma distinta família da capital imperial. O irmão dela, Platão, também era importante funcionário na mesma administração. Desse modo a família controlava significativa parte, senão toda, da administração financeira imperial durante o reinado de Constantino V (741-775). Teodoro tinha dois irmãos mais novos, José, depois arcebispo de Tessalônica, e Eutímio, do qual não temos dados, e mais uma irmã, da qual não se sabe o nome.

         De acordo com seus hagiógrafos, Teodoro recebeu uma educação condizente com a posição da família, estudando em casa antes de se dedicar à teologia.

Gravura do Mosteiro de Studios, por volta de 1877

Fundador do mosteiro de Saccudion

         No ano de 759 o tio materno de Teodoro, Platão, deixou o cargo no palácio, tornou-se sacerdote, e ingressou no mosteiro Symbola, na Bitínia. Após a morte do Imperador Leão IV (775-780), ele convenceu Teodoro, seu pai e irmãos, a fazerem também os votos monásticos. A família se mudou então para a Bitínia, onde transformou em mosteiro uma propriedade sua que ficava no lado asiático do Bósforo, perto de Constantinopla. Este ficou conhecido como Saccudion. Platão tornou-se o abade da nova fundação, e Teodoro seu braço direito. Os dois procuraram ordenar o mosteiro seguindo os escritos de São Basílio de Cesareia, considerado o Patriarca dos monges do Oriente.

         O Patriarca Tarásio (730-806) conferiu o sacerdócio a Teodoro que, no ano de 794, tornara-se abade do mosteiro de Saccudion, por seu tio ter-se retirado para se dedicar ao silêncio. Platão foi também elevado à honra dos altares.

O caso do “Sínodo do Adultério”

         Nesse mesmo ano de 794 ocorreu o chamado Sínodo do Adultério. O Imperador Constantino VI (776-797) decidiu se separar de sua esposa Maria da Armênia, para se casar adulterinamente com uma dama de companhia da imperatriz, que era prima de Teodoro. Este e seu tio condenaram essa união sacrílega.

         Poucos meses depois o Imperador fez proclamar Augusta sua concubina. Como o patriarca Tarásio não quis celebrar seu matrimônio ilegal, Constantino encontrou um ministro complacente, José, que em 795 bendisse oficialmente a união adúltera.

         São Teodoro, na época, escreveu em uma epístola que o divórcio do Imperador produzira profunda perturbação no mundo cristão (concussus est mundus,) e, com São Platão, protestou energicamente em nome da indissolubilidade do vínculo conjugal. “Coroando o adultério”, afirma ele, o sacerdote José se opôs ao ensino de Cristo, e violou a lei divina. Para Teodoro, era também condenável o patriarca Tarásio que, mesmo não aprovando as novas núpcias, se mostrou tolerante evitando excomungar o Imperador, como também punir o sacerdote José.

Baseando-se na autoridade de São Basílio, Teodoro reivindicou a faculdade concedida aos súditos de denunciar os erros do próprio superior, e os monges de Saccudion romperam a comunhão com o patriarca por essa sua como que cumplicidade no divórcio do Imperador.*

O retorno do exílio

Constantino VI e sua mãe Irene

A resposta do Imperador não se fez esperar. Em setembro de 796 ele mandou prender Platão, Teodoro e vários outros monges de Saccudion, e os exilou para Tessalônica.

Enquanto isso, em Constantinopla a oposição a Constantino, considerado como pecador público, crescia dia a dia. Ocorreu então que, durante uma convulsão no palácio, o Imperador foi cegado por ordem de sua mãe Irene, que assumiu então o comando do Império.

Em 799 ela chamou de volta os exilados, e ofereceu a São Teodoro o mosteiro de Studios, para onde ele foi em 799 com grande parte da comunidade de Saccudion, que estava ameaçada pelos árabes.

Durante o período de regência da imperatriz Irene, o abade Platão e Teodoro haviam se reconciliado com o Patriarca Tarásio, que no Segundo Concílio de Nicéia aprovara o culto das imagens.

São Platão assumiu temporariamente o comando do novo mosteiro de Studios, mas depois voltou ao seu silêncio, deixando o sobrinho no cargo. São Teodoro compôs uma regra para seu governo, e lhe deu a excelente organização que foi tomada depois como modelo por todo o mundo monástico bizantino da época. Ainda hoje ela existe no Monte Athos e no monaquismo russo.

Exemplo de administração

É surpreendente o sistema do Santo na direção do seu mosteiro. Ele complementou as regras um tanto teóricas de São Basílio por regulamentos específicos relativos à clausura, pobreza, disciplina, estudo, serviços religiosos, jejuns e trabalho manual. E o mais curioso: especificou os deveres dos vários membros da comunidade em versos, compostos por ele. Fez construir várias oficinas para os diversos ofícios, uma biblioteca e uma sala para a elaboração de manuscritos (scriptorium), atividade tão importante numa época em que ainda não existia a imprensa.

São Teodoro mantinha contato com vários outros mosteiros que giravam em torno de Studium por meio de sua prodigiosa produção literária, sobretudo cartas e catecismos, desenvolvendo para esse contato um sistema tão elaborado de mensageiros, que se assemelhava a um verdadeiro serviço postal privado.

Novamente exilado

         Sucedeu, entretanto, que um dos ministros imperiais, Nicéforo, deu um golpe de Estado e se proclamou Imperador. Este, para substituir o então falecido Tarásio no Patriarcado, escolheu um leigo, seu homônimo, que trabalhava na burocracia do palácio. São Teodoro e seus monges protestaram contra essa elevação de um leigo para o trono patriarcal, e foram por isso encarcerados por 24 dias, findo os quais voltaram ao seu mosteiro. O novo Patriarca restabeleceu em seu cargo o sacerdote José, que havia sido deposto por Tarásio.

Teodoro, que era superior da comunidade monástica de Studios, protestou fortemente contra essa reabilitação do padre José e, quando este retomou seu ministério sacerdotal, rompeu a comunhão com o patriarca Nicéforo. Seu mosteiro foi ocupado militarmente, e ele, seu tio e seu irmão José, arcebispo de Tessalônica, foram presos, condenados, e novamente exilados.

         Um sínodo convocado pelo Imperador com seus aderentes, reconheceu a legitimidade do segundo matrimônio de Constantino, confirmou a reabilitação do sacerdote José, e anatematizou Teodoro, Platão e José, que foi deposto de seu cargo como arcebispo. O santo protestou contra as decisões desse sínodo faccioso, e, por isso, ele, seu tio e José foram banidos para as Ilhas dos Príncipes.

Entretanto, no exílio, Teodoro manteve uma extensa atividade literária, escrevendo inúmeras cartas a seu irmão, a vários monges Studitas, a membros influentes de sua família, e até ao Papa Leão III. Continuou também a compor catecismos para a congregação Studita, e a escrever uma série de poemas.

Miniatura bizantina do séc. XI, representando São Teodoro e o Mosteiro de Studios (Menologion de Basil II)

Paladino na defesa das imagens santas

         Com a morte do Imperador Nicéforo em 811, subiu ao trono Leão V, o Armênio (775-820). Este depôs o patriarca Nicéforo, e condenou o culto das imagens. São Teodoro então assumiu a liderança da resistência contra a iconoclastia, e foi um dos grandes defensores das imagens sacras durante essa segunda fase dessa heresia. E corajosamente negou o direito do Imperador de interferir nos assuntos eclesiásticos.

Em 4 de abril de 814, o tio de Teodoro, São Platão, morreu no mosteiro de Studios após longa doença. O santo compôs uma longa oração fúnebre, a Laudatio Platonis, que continua sendo uma das fontes mais importantes para a história da família. O Martirológio Romano diz do primeiro: “Em Constantinopla, em 814, São Platão, abade, que combateu muitos anos com uma coragem invencível contra os quebradores das santas imagens e, com seu sobrinho São Teodoro, organizou o célebre mosteiro Studita”.

Mas o santo não ficou inteiramente passivo em sua resistência à iconoclastia. Pelo contrário, no Domingo de Ramos de 815, promoveu uma solene procissão, dentro dos muros do mosteiro, com mil monges de Studios que, sendo bem visíveis pelos de fora, carregavam os ícones sagrados, entoando solenes aclamações em sua homenagem. Essa procissão despertou a reação da polícia.

Por causa de sua audácia na defesa das santas imagens, Teodoro foi, por várias vezes entre os anos 815 e 821, preso e tratado com grande crueldade, açoitado, e exilado em diversos lugares da Ásia Menor, e seu mosteiro entregue aos monges iconoclastas. Mesmo no exílio, o santo continuou sendo o ponto central da oposição ao cesaropapismo e à iconoclastia.

Mas o santo não ficou inativo. Como da outra vez, ele exerceu ampla influência durante o primeiro ano de seu exílio por meio de uma campanha massiva de envio de cartas. Por causa disso, em 816 foi transferido para Boneta, fortaleza no extremo anatólico mais remoto, para ficar inteiramente isolado. Entretanto, lá ele conseguia um jeito de manter-se a par dos acontecimentos na capital mediante uma correspondência regular. Por causa disso, uma ordem imperial ordenava que Teodoro fosse duramente chicoteado. Mas seus carcereiros se recusaram a cumprir essa ordem infame.

O santo escreveu duas cartas ao Papa Pascoal I, que foram co-assinadas por vários abades anti-iconoclastas, solicitando que fosse convocado um Sínodo para defender o culto das imagens, e escreveu também cartas aos Patriarcas de Alexandria e Jerusalém, entre outros, nesse sentido. Como resultado, o Imperador ordenou outra vez que Teodoro fosse açoitado, ordem desta vez executada com tanto rigor, que o santo adoeceu gravemente. Após sua recuperação, o santo foi transferido para Smyrna.

Saltério Chludov (séc. IX), período bizantino. Página do manuscrito mostrando ataques iconoclastas a imagens. Moscou, Museu Histórico do Estado.

Volta definitiva do exílio e morte

No início de 821, Leão V foi vítima de terrível assassinato no altar da igreja de Santo Estevão, no palácio imperial, e um novo Imperador, Miguel II (810-9), permitiu o retorno dos exilados, não anulando, entretanto, as leis de seu predecessor.

Assim, Teodoro pôde retornar a Constantinopla, mas não ao seu mosteiro. Ele se estabeleceu então com seus monges do outro lado do Bósforo, em Prinkipo, onde morreu provavelmente no mosteiro de Hagios Tryphon, no Cabo Akritas, na Bitínia, no dia 11 de novembro de 826, enquanto celebrava Missa.

Dezoito anos depois seus restos mortais, bem como os de seu irmão José, foram transferidos para o mosteiro de Studio, onde foram enterrados ao lado dos de seu tio, São Platão.

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Nota:

* Cfr. Roberto de Mattei, San Teodoro Studita, in http://www.santiebeati.it/dettaglio/93382

Obras consultadas:

Klemens Löffler, Saint Theodore of Studium, The Catholic Encyclopedia, CD Room edition.

http://www.santiebeati.it/dettaglio/93382

https://en.wikipedia.org/wiki/Theodore_the_Studite